O juiz Sergio Moro, que se tornou uma personalidade nacional com a Operação Lava Jato, sofreu sua primeira derrota diante da opinião pública na tarde de ontem; reportagem do site da revista Exame apontou que a hashtag #ExplicaMoroPorqueSoPT foi o tema mais comentado do dia; fenômeno evidencia que, para boa parte da sociedade, o juiz paranaense cumpre uma agenda política, que protege o PSDB e visa destruir o PT; assim como o tesoureiro João Vaccari foi citado por delatores, o mesmo ocorreu com o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (PSDB-MG), mencionado pelo doleiro Alberto Youssef como dono de uma diretoria em Furnas que pagava propinas mensais de US$ 120 mil a políticos; Moro descobriu esquemas de Youssef na Petrobras, mas também na estatal mineira Cemig; nos dois casos, enxergou suspeitas, mas só no primeiro decidiu investigar; acusação de parcialidade já revela que o juiz está longe de ser unanimidade nacional
17 DE ABRIL DE 2015 ÀS 16:00
Paraná 247 - O juiz Sergio Moro, que conduz a Operação Lava Jato, sofreu ontem sua primeira derrota diante da opinião pública. Segundo reportagem do portal da revista Exame, a hashtag #ExplicaMoroPorqueSoPT chegou ao primeiro lugar dos assuntos mais comentados do dia no Brasil.
Como uma das imagens da Justiça é a cegueira ao mundo exterior, para garantir sua imparcialidade, o carimbo de um juiz que cumpre uma agenda política não contribui para a imagem de herói nacional, construída por alguns meios de comunicação – em especial a Globo, que deu a ele o prêmio de Brasil que "faz diferença".
Ontem, o jornalista Renato Rovai, que edita a revista Fórum, publicou um texto que se encaixa nesse contexto. "Livre de qualquer investigação, Aécio comemorou a prisão de Vaccari e começou a articular o impeachment de Dilma. E junto dele, com a mesma cara de pau, estava o presidente do DEM, Agripino Maia, acusado de receber R$ 1 milhão em propina", disse ele no artigo 'Vaccari e Aécio: dois citados na Lava Jato. Um é preso. O outro pede impeachment'.
As citação a Aécio não são menos graves do que as que atingem Vaccari. Segundo a Polícia Federal, o tesoureiro do PT foi preso porque, além das delações, foram encontrados "depósitos picados" de R$ 300 mil nas contas de seus familiares ao longo dos últimos anos.
Aécio foi citado pelo protagonista do enredo, o doleiro Alberto Youssef, como 'dono' de uma diretoria em Furnas, a de Dimas Toledo, que pagava um mensalão de US$ 120 mil a políticos durante o governo FHC (assista aqui o vídeo e leia reportagem do Tijolaço a respeito).
Ao se focar apenas no PT, cumprindo uma agenda que parece ter como objetivo a própria extinção do partido, como defende o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), Moro cria, nas palavras do jornalista Paulo Nogueira, editor do Diário do Centro do Mundo, a sensação de uma "justiça injusta".
"Ele jamais deu à Lava Jato uma coloração apartidária, assim como Joaquim Barbosa e o STF, um pouco atrás, para o Mensalão. Mais uma vez, fica a sensação que o principal alvo não é exatamente a corrupção, mas o PT e o governo Dilma. E disso resulta a percepção, entre tantos brasileiros, de uma justiça injusta, simbolizada há algum tempo em JB e agora em Moro", afirma Nogueira (leia mais aqui).
No início da Operação Lava Jato, Moro também flagrou operações de Youssef na Cemig. Mas afirmou que não iria investigar o caso porque não tinha conexão com a Petrobras – que também não era o foco inicial das investigações de Moro. No caso, a Investminas, do empresário Pedro Paulo Leoni Ramos, ex-ministro do governo Collor, teria pago uma propina de R$ 4,6 milhões à MO Consultoria, do doleiro Alberto Youssef, para vender alguns ativos à Light, empresa do Rio de Janeiro, controlada pela Cemig, estatal que é a joia da coroa mineira. Moro não tomou nenhuma providência relacionada ao caso – ao menos, até agora – porque, segundo ele próprio disse, não estaria relacionado aos desvios na Petrobras. Eis o que escreveu Moro:
A Investminas Participações S/A confirmou, em petição de 21/10/2014 (evento 18) pagamento de 4.600.000,00 (R$ 4.317.100,00 líquidos) à MO Consultoria. Alegou que remunerou conta indicada por Alberto Youssef em decorrência de intermediação e serviços especializados deste na venda de suas ações na Guanhães Energia S/A para a Light Energia S/A, com intervenção a CEMIG Geração e Transmissão S/A. Juntou como prova os contratos e notas fiscais pertinentes, todos com suspeita de terem sido produzidos fraudulentamente. Alegou que Alberto Youssef seria 'empresário que, à época, detinha conhecimento do setor elétrico e reconhecida expertise na área de assessoria comercial'. Aparentemente, trata-se de negócio que, embora suspeito, não estaria relacionado aos desvios na Petrobras.
Leia, abaixo, a reportagem da Exame sobre a presença de Moro no topo dos TTs do Twitter:
Da exame:
Um dia após a prisão de João Vaccari Neto, tesoureiro do PT até o fim da tarde de ontem, militantes do partido fazem tuitaço contra o juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, que investiga o escândalo de corrupção na Petrobras.
A hashtag do ato #ExplicaMoroPorqueSoPT é a primeira na lista dos trending topics do Twitter na tarde desta quinta-feira. Os manifestantes questionam a imparcialidade da Justiça e reinvindicam a investigação de casos de corrupção que envolvem o PSDB.
Na decisão que ordenou a prisão de Vaccari, Moro refutou a ideia de que a responsabilidade pelo escândalo seja exclusiva do PT. “Não se trata aqui de prisão contra a agremiação partidária à qual ele (Vaccari) pertence. A corrupção não tem cores partidárias. Não é monopólio de agremiações políticas ou de governos específicos”, escreveu na decisão.
Aos 42 anos, Moro é um dos principais especialistas em lavagem de dinheiro no país. Discreto, tende a não revelar muitos detalhes da sua vida pessoal. A esposa dele seria assessora jurídica de Flávio José Arns (PSDB), vice-governador do estado do Paraná, de acordo com informações do blog Conversa Afiada.
Professor de Direito Processual Penal Universidade Federal do Paraná, Moro concluiu o Program of Instruction for Lawyers da Universidade de Harvard e é doutor em Direito pela UFPR.
Em reação ao protesto favorável ao Partido dos Trabalhadores, internautas contrários ao governo tuítam com a hashtag #SomosTodosMoro, que não aparece na lista dos trending topics da rede de microblogs.
Por Brasil 247
sexta-feira, 17 de abril de 2015
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Governo não pautará debate sobre regulação
Escrito por: Elizângela Araújo/Foto: Ichiro Guerra
Presidenta Dilma Rousseff afirmou que não vê 'a mínima condição' de abrir o debate sobre o tema. FNDC reforça importância da mobilização social para pressionar o governo
Apesar de ter se afirmado publicamente, durante a campanha presidencial de 2014 (relembre aqui), que a regulação econômica do setor de comunicação seria um dos temas de seu segundo mandato, a presidenta Dilma Rousseff parece ter perdido o entusiasmo pelo assunto. Em nova entrevista coletiva concedida a blogueiros e jornalistas nesta terça (14/4), ela afirmou que o governo não vê condição de provocar essa discussão na atual conjuntura e que há outros caminhos “interessantes” para que a sociedade faça esse debate, citando como exemplo o Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Comunicação Social Eletrônica (Lei da Mídia Democrática).
Para a coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Rosane Bertotti, a fala de Dilma deixa clara a importância da intensificação da mobilização social pela coleta de assinaturas ao projeto. “O 2º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação [ENDC], realizado no último final de semana em Belo Horizonte, mostrou a força que o movimento de luta pela democratização da comunicação ganhou nos últimos tempos. Agora, acho que a presidenta deve atender à nossa solicitação e receber a diretoria-executiva do FNDC para que possamos apresentar o projeto para ela detalhadamente. Queremos abrir esse debate com a sociedade, mas o governo tem que ter disposição política para isso”, afirmou.
Renata Mieli, secretária-geral do FNDC, entende que a presidenta “deu um passo para trás no compromisso assumido explicitamente durante a eleição”. Para ela, ao dizer que não há cenário favorável para fazer essa discussão Dilma põe um obstáculo ao debate público do tema. “Nunca houve e nem vai haver ambiente propício, sempre haverá barreiras para esse assunto, principalmente as impostas pelos meios de comunicação”, pondera. Renata lembra que o FNDC não espera que o governo apresente uma proposta para a regulação do setor. “Isso ficou claro na audiência que tivemos com o ministro Berzoini em janeiro, mas esperávamos que o governo ao menos abrisse um debate público dessa questão. Agora, no entanto, ficou claro que o governo não fará isso. Então eu acho que precisamos ampliar a pressão do movimento social”.
Renata também evoca o sucesso do 2º ENDC. Para ela, o evento colocou a luta pela democratização da comunicação em um novo patamar. “Pela primeira vez, sem uma agenda institucional do governo, como foi o caso da primeira Confecom, reunimos 700 pessoas para discutir exclusivamente esse tema. Isso mostra que temos mais força e que somos capazes, sim, de pressionar o governo a fazer um debate democrático sobre a urgência de um novo marco regulatório para o setor da comunicação”. Para a secretária-geral do FNDC, o fortalecimento do movimento pela democratização da mídia deve, inclusive, ser usado para pressionar a presidenta a receber seus representantes para conhecer o projeto de lei de iniciativa popular.
Renata ressalta, ainda, que os países que regularam democraticamente seus setores de comunicação o fizeram a partir do poder Executivo. “Tanto aqui na América Latina quanto na Inglaterra, por exemplo, foi o poder Executivo que abriu esse debate. Temos um movimento organizado em torno dessa pauta há quase 30 anos. Temos um mercado de mídia dos mais fechados e concentrados do mundo, então não é possível que não façamos esse debate agora. Não há debate proibido em sociedade democráticas”, conclui.
Acordo com o Facebook
Outro tema relativo ao direito à comunicação pontuado na entrevista coletiva de ontem pelos blogueiros foi a disposição do governo em fechar parceria com o Facebook para oferecer acesso a internet a populações volumosas de áreas remotas do país. Neste ponto, a presidenta disse que ainda não há nada formalizado e que o governo vai conversar com o presidente da companhia, Mark Zuckerberg. Tanto Renata quanto Rosane engrossam a voz dos que alertam ara o fato de que esse possível acordo possa violar o princípio da neutralidade da rede, um dos maiores avanços do Marco Civil da Internet.
Além disso, lembra Renata, o Facebook é um dos canais da espionagem feita pela Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos. “A própria Dilma denunciou essa prática na Organização das Nações Unidas, então ela não pode levar adiante esse projeto sem conversar com o Comitê Gestor da Internet (CGi.br) e sem ouvir os movimentos sociais desse campo, como ela mesma disse na entrevista de ontem”.
Por FNDC
Presidenta Dilma Rousseff afirmou que não vê 'a mínima condição' de abrir o debate sobre o tema. FNDC reforça importância da mobilização social para pressionar o governoApesar de ter se afirmado publicamente, durante a campanha presidencial de 2014 (relembre aqui), que a regulação econômica do setor de comunicação seria um dos temas de seu segundo mandato, a presidenta Dilma Rousseff parece ter perdido o entusiasmo pelo assunto. Em nova entrevista coletiva concedida a blogueiros e jornalistas nesta terça (14/4), ela afirmou que o governo não vê condição de provocar essa discussão na atual conjuntura e que há outros caminhos “interessantes” para que a sociedade faça esse debate, citando como exemplo o Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Comunicação Social Eletrônica (Lei da Mídia Democrática).
Para a coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Rosane Bertotti, a fala de Dilma deixa clara a importância da intensificação da mobilização social pela coleta de assinaturas ao projeto. “O 2º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação [ENDC], realizado no último final de semana em Belo Horizonte, mostrou a força que o movimento de luta pela democratização da comunicação ganhou nos últimos tempos. Agora, acho que a presidenta deve atender à nossa solicitação e receber a diretoria-executiva do FNDC para que possamos apresentar o projeto para ela detalhadamente. Queremos abrir esse debate com a sociedade, mas o governo tem que ter disposição política para isso”, afirmou.
Renata Mieli, secretária-geral do FNDC, entende que a presidenta “deu um passo para trás no compromisso assumido explicitamente durante a eleição”. Para ela, ao dizer que não há cenário favorável para fazer essa discussão Dilma põe um obstáculo ao debate público do tema. “Nunca houve e nem vai haver ambiente propício, sempre haverá barreiras para esse assunto, principalmente as impostas pelos meios de comunicação”, pondera. Renata lembra que o FNDC não espera que o governo apresente uma proposta para a regulação do setor. “Isso ficou claro na audiência que tivemos com o ministro Berzoini em janeiro, mas esperávamos que o governo ao menos abrisse um debate público dessa questão. Agora, no entanto, ficou claro que o governo não fará isso. Então eu acho que precisamos ampliar a pressão do movimento social”.
Renata também evoca o sucesso do 2º ENDC. Para ela, o evento colocou a luta pela democratização da comunicação em um novo patamar. “Pela primeira vez, sem uma agenda institucional do governo, como foi o caso da primeira Confecom, reunimos 700 pessoas para discutir exclusivamente esse tema. Isso mostra que temos mais força e que somos capazes, sim, de pressionar o governo a fazer um debate democrático sobre a urgência de um novo marco regulatório para o setor da comunicação”. Para a secretária-geral do FNDC, o fortalecimento do movimento pela democratização da mídia deve, inclusive, ser usado para pressionar a presidenta a receber seus representantes para conhecer o projeto de lei de iniciativa popular.
Renata ressalta, ainda, que os países que regularam democraticamente seus setores de comunicação o fizeram a partir do poder Executivo. “Tanto aqui na América Latina quanto na Inglaterra, por exemplo, foi o poder Executivo que abriu esse debate. Temos um movimento organizado em torno dessa pauta há quase 30 anos. Temos um mercado de mídia dos mais fechados e concentrados do mundo, então não é possível que não façamos esse debate agora. Não há debate proibido em sociedade democráticas”, conclui.
Acordo com o Facebook
Outro tema relativo ao direito à comunicação pontuado na entrevista coletiva de ontem pelos blogueiros foi a disposição do governo em fechar parceria com o Facebook para oferecer acesso a internet a populações volumosas de áreas remotas do país. Neste ponto, a presidenta disse que ainda não há nada formalizado e que o governo vai conversar com o presidente da companhia, Mark Zuckerberg. Tanto Renata quanto Rosane engrossam a voz dos que alertam ara o fato de que esse possível acordo possa violar o princípio da neutralidade da rede, um dos maiores avanços do Marco Civil da Internet.
Além disso, lembra Renata, o Facebook é um dos canais da espionagem feita pela Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos. “A própria Dilma denunciou essa prática na Organização das Nações Unidas, então ela não pode levar adiante esse projeto sem conversar com o Comitê Gestor da Internet (CGi.br) e sem ouvir os movimentos sociais desse campo, como ela mesma disse na entrevista de ontem”.
Por FNDC
quarta-feira, 15 de abril de 2015
A bancada BBB domina o Congresso
Após algumas sessões marcadas por protestos, bate-bocas e intensa troca de acusações, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou na terça-feira 31 a admissibilidade da proposta de emenda à Constituição que reduz de 18 para 16 anos a maioridade penal no Brasil. Agora, a discussão caminha para uma comissão especial, que terá cerca de três meses para debater iniciativas similares e consolidar um relatório a ser votado no plenário. Entre as sugestões, há toda sorte de “soluções”, da responsabilização de adolescentes apenas em caso de crimes contra a vida à espantosa proposta de baixar o limite de idade para 12 anos.
O debate sobre o tema ocorre há mais de duas décadas na Câmara, mas a tramitação desses projetos sempre foi travada por deputados ligados aos direitos humanos. Segundo juristas de diferentes matizes ideológicos, a responsabilização a partir dos 18 anos é cláusula pétrea da Constituição. Mesmo assim, a proposta foi reavivada pela chamada Bancada da Bala, que não teve dificuldade para angariar o apoio de parlamentares evangélicos e ruralistas. PSDB, DEM, PSD, PRB, Solidariedade, PSC e parcelas do PMDB asseguraram a vitória do grupo. Às vésperas da votação, a deputada petista Erika Kokay previa o pior. “Há uma forte aliança dos setores conservadores na Câmara. Há tempos tenho alertado sobre a força dos fundamentalistas da ‘Bancada BBB’, da Bíblia, do Boi e da Bala”, diz. “Agora, eles estão ainda mais unidos e articulados.”
O termo “BBB” foi usado por Kokay pela primeira vez em uma reunião da bancada do PT na Câmara no início do ano, e arrancou risadas dos colegas. A expressão não tardou a se difundir entre parlamentares de partidos de esquerda, que também identificam nessa articulação uma ameaça aos direitos humanos e das minorias. “Desde a discussão do Código Florestal, em 2012, os ruralistas buscam essa aproximação com os evangélicos. Logo depois, eles estavam unidos em torno da PEC 215, que retira do Executivo a prerrogativa de demarcar Terras Indígenas, transferindo-a para o Congresso. Mais recentemente agregaram a Bancada da Bala”, afirma o deputado Ivan Valente, do PSOL. “Com Eduardo Cunha na presidência da Câmara, essa aliança consolidou-se. Até porque esses grupos ajudaram a elegê-lo.”
Nos últimos anos, a esquerda recorreu a manobras de obstrução para barrar iniciativas como a revogação do Estatuto do Desarmamento ou a aprovação do Estatuto da Família, que restringe a definição de núcleo familiar à união entre um homem e uma mulher, forma de impedir a adoção de crianças por casais gays. No caso da PEC 215, contaram ainda com a mobilização dos povos indígenas, que chegaram a ocupar o Plenário da Câmara para resistir às mudanças nas demarcações. Um Congresso de perfil mais conservador torna, porém, mais difícil evitar essa onda.
A ofensiva conservadora começou pela área de segurança. Na quinta-feira 26, a Câmara aprovou um projeto que eleva a pena para crimes cometidos contra policiais, agentes carcerários, militares e bombeiros em exercício da função. No dia anterior, o plenário havia aprovado outra proposta que dificulta a concessão de liberdade condicional aos condenados por crimes hediondos.
A investida mobilizou diferentes setores da sociedade civil. “Sabemos que logo mais essa onda pode afogar os direitos indígenas, até porque a PEC 215 foi desarquivada”, avalia Cleber Buzatto, secretário-executivo do Conselho Missionário Indigenista. “Em abril, teremos novo acampamento em Brasília, com mais de mil lideranças indígenas.” Na avaliação de Kokay, a aliança BBB vai muito além da estratégia de apoiar a pauta alheia para fortalecer a sua própria. “Na verdade, todos eles compartilham da mesma ideologia, unem-se na defesa da sociedade patrimonialista e patriarcal.”
Somados, os BBB dispõem de 40% dos votos da Câmara, mas são capazes de formar maioria com tranquilidade, diz André Luís dos Santos, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). “Eles não têm dificuldade para angariar apoio de outros blocos, até por ocuparem postos-chave na estrutura de poder da Casa.” Nessa frente, a ala mais numerosa é a ruralista, formada por 109 deputados e 17 senadores, segundo a “Radiografia do Novo Congresso”, atualizada a cada nova legislatura pelo Diap. Após Kátia Abreu assumir o Ministério da Agricultura, o oposicionista Ronaldo Caiado, do DEM, emergiu como uma das principais referências da chamada Bancada do Boi no Senado. Campeão de votos no Rio Grande do Sul, Luis Carlos Heinze, doPP, mantém a liderança do grupo na Câmara.
A Bancada da Bíblia, por sua vez, aumentou de 73 para 75 o número de deputados eleitos, além de preservar três senadores, registra o Diap. O pastor Marco Feliciano, do PSC, quase dobrou a quantidade de votos obtidos de 2010 para 2014, e segue como uma referência importante. Mas é o peemedebista Eduardo Cunha, fiel da Igreja Sara Nossa Terra, quem ocupa o palco, por definir o que entra ou não na pauta da Câmara.
Cunha reveza-se entre pautas folclóricas, entre elas a criação do “Dia do Orgulho Hétero”, e iniciativas mais retrógradas, a começar pela intenção de proibir o aborto até em casos previstos em lei, como estupro e gravidez de risco. “É difícil ter uma agenda do século XXI com o presidente da Câmara patrocinando esse tipo de projeto”, lamenta a deputada Jandira Feghali, líder do PCdoB.
Completam o time dos BBB ao menos 22 deputados defensores da redução da maioridade, do fim das penas alternativas e da permissão do porte de arma para todo cidadão, revela o Diap. Um expoente da Bancada da Bala é Jair Bolsonaro (PP-RJ), capitão da reserva do Exército, e Alberto Fraga (DEM-DF), coronel reformado da Polícia Militar e líder da Frente Parlamentar de Segurança Pública, representada pelo desenho de duas pistolas sobrespostas à silhueta do Congresso Nacional. Na terça-feira 31, Bolsonaro celebrou pelas redes sociais a vitória na CCJ da Câmara e o aniversário do golpe de 1964. Debochado, posou para fotos após estender uma faixa sobre o gramado do Parlamento: “Parabéns, militares. Graças a vocês o Brasil não é Cuba”.
Apoiada por nove em cada dez brasileiros, segundo diferentes pesquisas, a redução da maioridade penal enfrenta a oposição de importantes entidades, entre elas a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Associação Juízes pela Democracia. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime também é contra. “É importante levar em conta que homicídios cometidos por adolescentes representam menos de 1% do total, enquanto mais de 36% das vítimas de homicídios no Brasil são adolescentes”, anota a agência da ONU.
Na prática, o encarceramento de menores em cadeias comuns tende a agravar o problema de superlotação no sistema prisional, hoje com um déficit de 200 mil vagas. Segundo o último levantamento feito pelo Conselho Nacional de Justiça, o País possui mais de 715 mil presos, dos quais apenas 148 mil estão em regime domiciliar. É a quarta maior população carcerária do mundo, atrás apenas de EUA, China e Rússia. Tampouco existem evidências de que o rebaixamento da idade penal seja capaz de reduzir os índices de criminalidade, observa o historiador Douglas Belchior, militante do Movimento Negro e integrante do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. “Ao contrário, o ingresso antecipado no falido sistema prisional aumenta as chances de reincidência, uma vez que as taxas nas penitenciárias são de 70%, enquanto no sistema socioeducativo estão abaixo de 20%.”
Por Rodrigo Martins, na revista CartaCapital:Por
O debate sobre o tema ocorre há mais de duas décadas na Câmara, mas a tramitação desses projetos sempre foi travada por deputados ligados aos direitos humanos. Segundo juristas de diferentes matizes ideológicos, a responsabilização a partir dos 18 anos é cláusula pétrea da Constituição. Mesmo assim, a proposta foi reavivada pela chamada Bancada da Bala, que não teve dificuldade para angariar o apoio de parlamentares evangélicos e ruralistas. PSDB, DEM, PSD, PRB, Solidariedade, PSC e parcelas do PMDB asseguraram a vitória do grupo. Às vésperas da votação, a deputada petista Erika Kokay previa o pior. “Há uma forte aliança dos setores conservadores na Câmara. Há tempos tenho alertado sobre a força dos fundamentalistas da ‘Bancada BBB’, da Bíblia, do Boi e da Bala”, diz. “Agora, eles estão ainda mais unidos e articulados.”
O termo “BBB” foi usado por Kokay pela primeira vez em uma reunião da bancada do PT na Câmara no início do ano, e arrancou risadas dos colegas. A expressão não tardou a se difundir entre parlamentares de partidos de esquerda, que também identificam nessa articulação uma ameaça aos direitos humanos e das minorias. “Desde a discussão do Código Florestal, em 2012, os ruralistas buscam essa aproximação com os evangélicos. Logo depois, eles estavam unidos em torno da PEC 215, que retira do Executivo a prerrogativa de demarcar Terras Indígenas, transferindo-a para o Congresso. Mais recentemente agregaram a Bancada da Bala”, afirma o deputado Ivan Valente, do PSOL. “Com Eduardo Cunha na presidência da Câmara, essa aliança consolidou-se. Até porque esses grupos ajudaram a elegê-lo.”
Nos últimos anos, a esquerda recorreu a manobras de obstrução para barrar iniciativas como a revogação do Estatuto do Desarmamento ou a aprovação do Estatuto da Família, que restringe a definição de núcleo familiar à união entre um homem e uma mulher, forma de impedir a adoção de crianças por casais gays. No caso da PEC 215, contaram ainda com a mobilização dos povos indígenas, que chegaram a ocupar o Plenário da Câmara para resistir às mudanças nas demarcações. Um Congresso de perfil mais conservador torna, porém, mais difícil evitar essa onda.
A ofensiva conservadora começou pela área de segurança. Na quinta-feira 26, a Câmara aprovou um projeto que eleva a pena para crimes cometidos contra policiais, agentes carcerários, militares e bombeiros em exercício da função. No dia anterior, o plenário havia aprovado outra proposta que dificulta a concessão de liberdade condicional aos condenados por crimes hediondos.
A investida mobilizou diferentes setores da sociedade civil. “Sabemos que logo mais essa onda pode afogar os direitos indígenas, até porque a PEC 215 foi desarquivada”, avalia Cleber Buzatto, secretário-executivo do Conselho Missionário Indigenista. “Em abril, teremos novo acampamento em Brasília, com mais de mil lideranças indígenas.” Na avaliação de Kokay, a aliança BBB vai muito além da estratégia de apoiar a pauta alheia para fortalecer a sua própria. “Na verdade, todos eles compartilham da mesma ideologia, unem-se na defesa da sociedade patrimonialista e patriarcal.”
Somados, os BBB dispõem de 40% dos votos da Câmara, mas são capazes de formar maioria com tranquilidade, diz André Luís dos Santos, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). “Eles não têm dificuldade para angariar apoio de outros blocos, até por ocuparem postos-chave na estrutura de poder da Casa.” Nessa frente, a ala mais numerosa é a ruralista, formada por 109 deputados e 17 senadores, segundo a “Radiografia do Novo Congresso”, atualizada a cada nova legislatura pelo Diap. Após Kátia Abreu assumir o Ministério da Agricultura, o oposicionista Ronaldo Caiado, do DEM, emergiu como uma das principais referências da chamada Bancada do Boi no Senado. Campeão de votos no Rio Grande do Sul, Luis Carlos Heinze, doPP, mantém a liderança do grupo na Câmara.
A Bancada da Bíblia, por sua vez, aumentou de 73 para 75 o número de deputados eleitos, além de preservar três senadores, registra o Diap. O pastor Marco Feliciano, do PSC, quase dobrou a quantidade de votos obtidos de 2010 para 2014, e segue como uma referência importante. Mas é o peemedebista Eduardo Cunha, fiel da Igreja Sara Nossa Terra, quem ocupa o palco, por definir o que entra ou não na pauta da Câmara.
Cunha reveza-se entre pautas folclóricas, entre elas a criação do “Dia do Orgulho Hétero”, e iniciativas mais retrógradas, a começar pela intenção de proibir o aborto até em casos previstos em lei, como estupro e gravidez de risco. “É difícil ter uma agenda do século XXI com o presidente da Câmara patrocinando esse tipo de projeto”, lamenta a deputada Jandira Feghali, líder do PCdoB.
Completam o time dos BBB ao menos 22 deputados defensores da redução da maioridade, do fim das penas alternativas e da permissão do porte de arma para todo cidadão, revela o Diap. Um expoente da Bancada da Bala é Jair Bolsonaro (PP-RJ), capitão da reserva do Exército, e Alberto Fraga (DEM-DF), coronel reformado da Polícia Militar e líder da Frente Parlamentar de Segurança Pública, representada pelo desenho de duas pistolas sobrespostas à silhueta do Congresso Nacional. Na terça-feira 31, Bolsonaro celebrou pelas redes sociais a vitória na CCJ da Câmara e o aniversário do golpe de 1964. Debochado, posou para fotos após estender uma faixa sobre o gramado do Parlamento: “Parabéns, militares. Graças a vocês o Brasil não é Cuba”.
Apoiada por nove em cada dez brasileiros, segundo diferentes pesquisas, a redução da maioridade penal enfrenta a oposição de importantes entidades, entre elas a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Associação Juízes pela Democracia. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime também é contra. “É importante levar em conta que homicídios cometidos por adolescentes representam menos de 1% do total, enquanto mais de 36% das vítimas de homicídios no Brasil são adolescentes”, anota a agência da ONU.
Na prática, o encarceramento de menores em cadeias comuns tende a agravar o problema de superlotação no sistema prisional, hoje com um déficit de 200 mil vagas. Segundo o último levantamento feito pelo Conselho Nacional de Justiça, o País possui mais de 715 mil presos, dos quais apenas 148 mil estão em regime domiciliar. É a quarta maior população carcerária do mundo, atrás apenas de EUA, China e Rússia. Tampouco existem evidências de que o rebaixamento da idade penal seja capaz de reduzir os índices de criminalidade, observa o historiador Douglas Belchior, militante do Movimento Negro e integrante do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. “Ao contrário, o ingresso antecipado no falido sistema prisional aumenta as chances de reincidência, uma vez que as taxas nas penitenciárias são de 70%, enquanto no sistema socioeducativo estão abaixo de 20%.”
Por Rodrigo Martins, na revista CartaCapital:Por
terça-feira, 14 de abril de 2015
Mais de 80 títulos definitivos entregues em Uruará!
Quando se fala em regularização fundiária se fala de grandes ganhos econômicos e do fim dos entraves das famílias que vivem no campo!
Com o título definitivo de suas propriedades rurais em mãos os agricultores passam a ter acesso a créditos junto às agencias bancárias e também são incluídos em programas do governo para melhorias de estradas e vicinais ou financiamentos de casas como o projeto minha casa, minha vida rural. A Fundação Viver Produzir e Preservar bem conhece as dificuldades do homem do campo e sabe que a região da Transamazônica e Xingu precisa evoluir quando o assunto é regularização fundiária.
Com o mutirão, projeto financiado pelo Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável e executado pela FVPP, este sonho começa a ser realizado. Há cada edição os números de agricultores que vão buscar a legalidade surpreendem os organizadores e incentivam a equipe que com a parceria do Programa Terra Legal tem feito um trabalho produtivo e rápido nas cidades do entorno de Belo Monte.
Na última sexta feira (10/04) mais de 80 títulos definitivos foram entregues aos agricultores de Uruará, além de uma moto zero quilometro que foi entregue para o escritório do Programa Terra Legal para facilitar os trabalhos.
E a meta da FVPP é continuar facilitando a vida do homem do campo e da cidade!
Raiany Brito // ASCOM FVPP
Com o título definitivo de suas propriedades rurais em mãos os agricultores passam a ter acesso a créditos junto às agencias bancárias e também são incluídos em programas do governo para melhorias de estradas e vicinais ou financiamentos de casas como o projeto minha casa, minha vida rural. A Fundação Viver Produzir e Preservar bem conhece as dificuldades do homem do campo e sabe que a região da Transamazônica e Xingu precisa evoluir quando o assunto é regularização fundiária.
Com o mutirão, projeto financiado pelo Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável e executado pela FVPP, este sonho começa a ser realizado. Há cada edição os números de agricultores que vão buscar a legalidade surpreendem os organizadores e incentivam a equipe que com a parceria do Programa Terra Legal tem feito um trabalho produtivo e rápido nas cidades do entorno de Belo Monte.
Na última sexta feira (10/04) mais de 80 títulos definitivos foram entregues aos agricultores de Uruará, além de uma moto zero quilometro que foi entregue para o escritório do Programa Terra Legal para facilitar os trabalhos.
E a meta da FVPP é continuar facilitando a vida do homem do campo e da cidade!
Raiany Brito // ASCOM FVPP
domingo, 12 de abril de 2015
PROTESTOS MURCHAM NO PAÍS E #ACEITADILMAVEZ BOMBA
A segunda rodada de protestos contra o governo da presidente Dilma Rousseff tem impacto muito inferior ao do último 15 de março; em Belo Horizonte, por exemplo, 3 mil pessoas protestaram, contra 24 mil no evento passado; em Manaus, havia 360 manifestantes; em Brasília, volume de pessoas caiu a menos da metade; enquanto isso, a hashtag #AceitaDilmaVez lidera os trending topics do Twitter, com os assuntos mais comentados do dia no Brasil e o segundo mais comentado no mundo; expectativa, agora, diz respeito à manifestação de São Paulo, que reuniu o maior público no protesto anterior
Os protestos contra o governo da presidente Dilma Rousseff neste 12 de abril vêm tendo alcance bem mais limitado do que no último 15 de março, segundo dados da Polícia Militar, em várias capitais.
Enquanto isso, a hashtag #AceitaDilmaVez se tornou o assunto mais comentado nos trending topics do Twitter no Brasil e o segundo mais comentado no mundo.
Leia, abaixo, reportagem da Agência Brasil sobre os protestos:
Protestos contra o governo reúnem manifestantes em várias cidades do país
Andreia Verdélio e Luana Lourenço - Repórteres da Agência Brasil
Os protestos contra o governo da presidenta Dilma Rousseff e pelo fim da corrupção se repetiram hoje (12) em várias cidades do país. No dia 15 de março, manifestantes foram às ruas pelos mesmos motivos.
Em Brasília, pelo menos 20 mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar (PM), caminharam pela Esplanada dos Ministérios em direção ao Congresso Nacional com faixas e palavras de ordem pedindo a saída de Dilma do governo e o fim da corrupção, entre outros. Vestidos de verde e amarelo e com bandeiras do Brasil, os manifestantes foram acompanhados por 3 mil policiais. Em março, 45 mil pessoas participaram da marcha na capital, segundo a PM.
Em Belo Horizonte, o protesto se concentrou na Praça da Liberdade. Convocado pelas redes sociais por diversas organizações, o ato também pediu o fim da corrupção, a reforma política e o impeachment da presidenta Dilma. De acordo com a PM de Minas Gerais, por volta de 12h, 3 mil pessoas participavam do protesto. Na manifestação do dia 15 de março, 24 mil pessoas estiveram no local, também segundo a polícia.
Da Praça da Liberdade, os manifestantes devem seguir até a Praça da Estação, no centro da capital da mineira, onde o ato deverá ser encerrado.
Em Manaus, a concentração, marcada para as 9h, na Praça do Congresso, no centro da capital, começou tímida por causa da chuva, segundo os organizadores. De acordo com o integrante do Movimento Brasil Livre Jean Batista, cerca de 10 mil pessoas participam da manifestação. A Polícia Militar informou que, por volta das 11h, havia 360 manifestantes. O grupo caminhou por algumas ruas do centro da capital amazonense e já começou a se dispersar. Segundo a PM, 420 polícias militares acompanham o movimento e nenhuma ocorrência foi registrada.
Em São Luís, cerca de 3 mil manifestantes se concentram na Avenida Litorânea, segundo os organizadores do Movimento Brasil Livre. A PM ainda não fez a estimativa oficial, mas informou que um número reduzido de pessoas participam do movimento. Aproximadamente 20 policiais acompanham a manifestação.
No Rio de Janeiro, a Orla de Copacabana voltou a ser tomada por manifestantes contrários ao governo. Acompanhados de três carros de som e com bandeiras diversas, o grupo caminha pela Avenida Atlântica. Além do pedido de impeachment da presidenta Dilma e de investigação das denúncias de corrupção, há, entre os manifestantes, os que defendem a reforma política e grupos que pedem o retorno dos militares ao poder.
Em São Paulo, onde a manifestação de 15 de março reuniu 1 milhão de pessoas, segundo a PM, as pessoas começam a se concentrar para o ato de hoje, marcado para as 14h, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp). Também há protestos previstos para esta tarde em cidades de Alagoas, do Amapá, Ceará, Espírito Santo, de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, da Paraíba, do Paraná, de Pernambuco, do Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, de Rondônia, Roraima, Santa Catarina, Sergipe e do Tocantins.
Por Brasil 247
Os protestos contra o governo da presidente Dilma Rousseff neste 12 de abril vêm tendo alcance bem mais limitado do que no último 15 de março, segundo dados da Polícia Militar, em várias capitais.
Enquanto isso, a hashtag #AceitaDilmaVez se tornou o assunto mais comentado nos trending topics do Twitter no Brasil e o segundo mais comentado no mundo.
Leia, abaixo, reportagem da Agência Brasil sobre os protestos:
Protestos contra o governo reúnem manifestantes em várias cidades do país
Andreia Verdélio e Luana Lourenço - Repórteres da Agência Brasil
Os protestos contra o governo da presidenta Dilma Rousseff e pelo fim da corrupção se repetiram hoje (12) em várias cidades do país. No dia 15 de março, manifestantes foram às ruas pelos mesmos motivos.
Em Brasília, pelo menos 20 mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar (PM), caminharam pela Esplanada dos Ministérios em direção ao Congresso Nacional com faixas e palavras de ordem pedindo a saída de Dilma do governo e o fim da corrupção, entre outros. Vestidos de verde e amarelo e com bandeiras do Brasil, os manifestantes foram acompanhados por 3 mil policiais. Em março, 45 mil pessoas participaram da marcha na capital, segundo a PM.
Em Belo Horizonte, o protesto se concentrou na Praça da Liberdade. Convocado pelas redes sociais por diversas organizações, o ato também pediu o fim da corrupção, a reforma política e o impeachment da presidenta Dilma. De acordo com a PM de Minas Gerais, por volta de 12h, 3 mil pessoas participavam do protesto. Na manifestação do dia 15 de março, 24 mil pessoas estiveram no local, também segundo a polícia.
Da Praça da Liberdade, os manifestantes devem seguir até a Praça da Estação, no centro da capital da mineira, onde o ato deverá ser encerrado.
Em Manaus, a concentração, marcada para as 9h, na Praça do Congresso, no centro da capital, começou tímida por causa da chuva, segundo os organizadores. De acordo com o integrante do Movimento Brasil Livre Jean Batista, cerca de 10 mil pessoas participam da manifestação. A Polícia Militar informou que, por volta das 11h, havia 360 manifestantes. O grupo caminhou por algumas ruas do centro da capital amazonense e já começou a se dispersar. Segundo a PM, 420 polícias militares acompanham o movimento e nenhuma ocorrência foi registrada.
Em São Luís, cerca de 3 mil manifestantes se concentram na Avenida Litorânea, segundo os organizadores do Movimento Brasil Livre. A PM ainda não fez a estimativa oficial, mas informou que um número reduzido de pessoas participam do movimento. Aproximadamente 20 policiais acompanham a manifestação.
No Rio de Janeiro, a Orla de Copacabana voltou a ser tomada por manifestantes contrários ao governo. Acompanhados de três carros de som e com bandeiras diversas, o grupo caminha pela Avenida Atlântica. Além do pedido de impeachment da presidenta Dilma e de investigação das denúncias de corrupção, há, entre os manifestantes, os que defendem a reforma política e grupos que pedem o retorno dos militares ao poder.
Em São Paulo, onde a manifestação de 15 de março reuniu 1 milhão de pessoas, segundo a PM, as pessoas começam a se concentrar para o ato de hoje, marcado para as 14h, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp). Também há protestos previstos para esta tarde em cidades de Alagoas, do Amapá, Ceará, Espírito Santo, de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, da Paraíba, do Paraná, de Pernambuco, do Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, de Rondônia, Roraima, Santa Catarina, Sergipe e do Tocantins.
Por Brasil 247
sábado, 11 de abril de 2015
Como Che Guevara encararia a aproximação de Cuba com os EUA?
Quatro estudiosos em Che Guevara e Cuba avaliam o que um dos principais ideólogos da revolução cubana diria dessa nova realidade da ilha caribenha
Às vésperas do que promete ser um encontro histórico entre os presidentes cubano, Raúl Castro, e americano, Barack Obama, na Cúpula das Américas, no Panamá, alguns críticos questionam se uma aproximação entre Havana e Washington não seria uma traição ao passado revolucionário da ilha.
Há mais de 50 anos, uma revolução liderada por Fidel Castro, irmão de Raúl, derrubou um governo apoiado pelos Estados Unidos e colocou em prática seus ideais comunistas.
Uma figura importante nessa transição em Cuba foi Che Guevara, que se tornou referência mundial como símbolo de revolução socialista.
Agora, o mundo observa o líder cubano fazendo um acordo com os Estados Unidos, abrindo as portas para uma nova relação entre os dois países – e o eventual fim do embargo econômico à ilha.
Mas o que Che Guevara, um dos principais ideólogos da implantação do comunismo em Cuba – que ele via como um ponto de partida para uma revolução contra o capitalismo em todo o continente latino-americano – pensaria dessa nova realidade?
Para responder a essa pergunta, a rede BBC ouviu quatro especialistas em Cuba e Che Gevara:
1. Lucia Alvarez de Toledo, biógrafa de Che Guevara
‘Che detestava os Estados Unidos’
Che é a alma de Cuba. Ele é o espírito da nação, é inacreditável, ele está em todo lugar.
Ele articulou o que eu pensava. Eu estava cercada por aqueles horríveis americanos, e nós éramos como uma colônia, pelo amor de Deus.
Nós produzimos este homem que falava, pensava e era como nós, claro que amávamos ele.
Ele detestava (os Estados Unidos), porque via pobreza extrema em um continente que não precisava ser pobre.
Quando a revolução triunfou, qualquer um que estivesse envolvido com os americanos foi expulso.
(Hoje) Che diria que a revolução cubana está tão firmemente entrincheirada que ninguém pode tirá-la (dos cubanos), ninguém pode tirar seu serviço de saúde pública, ninguém pode tirar sua educação. Eu me sinto bem com isso porque a revolução é sólida.
Ele diria: eles acordaram, perceberam seus erros. Porque são os americanos que perceberam que seu comportamento não os beneficiou, e eles agora vão mudar.
2. Louis Perez, diretor de Estudos da América Latina na universidade da Carolina do Norte
EUA querem que o povo cubano seja agente da mudança
Há esta crença histórica e cultural nos Estados Unidos de que o destino de Cuba pertence a eles. Basicamente, Cuba foi uma ilha tropical que existia para servir ao prazer americano.
O clamor da revolução por legitimidade moral e poder político foi sua capacidade de reivindicar soberania nacional e autodeterminação.
Em um período de 24 meses, a nova liderança de Cuba mudou o propósito do governo cubano para servir interesses cubanos: Cuba para os cubanos.
A derrubada do governo cubano era o objetivo primordial da política americana entre 1960 e dezembro de 2014. Para isso produziram dificuldades econômicas para tornar a vida o mais difícil possível para o povo cubano. Na esperança de que eles entrariam em desespero, derrubar o governo e assim produzir o resultado esperado pelos Estados Unidos.
A nova abordagem procura dar poder ao povo de Cuba para fazê-los largar da dependência do governo cubano e assim servir como agentes internos para mudança política.
Cuba poderia ser inundada com capital, turistas e produtos americanos. Agora resta ver como será a relação entre os cubanos e esse novo ambiente social e econômico.
Para se ter uma noção da resposta de Che, veja a carta que Fidel Castro escreveu (ela foi publicada no jornal estatal de Cuba em janeiro) na qual ele apoia a transição com má vontade. Ele reconhece a necessidade inevitável de reconciliação com os Estados Unidos, mas continua a ser muito, muito, cauteloso.
3. Carmelo Mesa-Lago, professor de economia na Universidade de Pittsburgh
Che Guevara um mito do passado
Quando a União Soviética se desintegrou em 1990, Cuba entrou em uma grave crise econômica, a pior desde a Grande Depressão. Fidel não teve outra alternativa além de fazer reformas: ele legalizou a circulação do dólar e investiu no setor de turismo para receber estrangeiros.
Empregos privados e um mercado agrícola foram permitidos. Isso gerou efeitos positivos na economia.
Fidel nunca gostou dessas reformas orientadas pelo mercado, ele simplesmente nunca teve outra alternativa.
Cuba está se privatizando. Eles anunciaram em 2010 que teriam que demitir 1,8 milhão de trabalhadores no setor estatal. Isso representa 36% da força de trabalho.
Agora é possível comprar e vender casas, os cubanos podem ter uma segunda casa no campo ou na praia. O Estado mantém a posse da terra, mas dá contratos de dez anos para fazendeiros para que eles possam investir na terra. Che se oporia a isso.
Raúl percebeu há um tempo atrás que o sistema não poderia continuar, mas Fidel estava no comando, e ele não poderia ir contra Fidel. Quando ele assumiu, gradualmente começou a implementar as reformas.
Che Guevara era um idealista e poderia dizer que Raul está traindo a revolução.
(Mas) ninguém em Cuba está pensando no que Che Guevara pensaria. As pessoas não querem sonhos. Elas apoiaram esse sistema por 54 anos. E agora querem comprar coisas, viajar, comprar suas casas.
Você encontra retratos de Che Guevara em qualquer lugar na América Latina. E claro que há um grande retrato de Che Guevara na Plaza de La Revolucion, que Fidel usava para falar com a nação. Mas é como uma brincadeira. É simplesmente um mito do passado.
4. Rafael Hernandez, editor chefe da revista cubana ‘Temas’
Reformas no ‘espírito do Che’
As visões de Che Guevara são mal entendidas. Nós não queríamos impor o modelo socialista soviético, mas criar um tipo diferente de sistema socialista e nesse sistema socialista havia uma presença legítima do setor privado.
Apenas em 1968 a Revolução Cubana nacionalizou os últimos pequenos negócios em Cuba. Em outras palavras, a Revolução Cubana conviveu com o setor privado por nove anos.
A Revolução Cubana em 1968 teve uma virada em direção a um movimento ideológico mais radical. Naqueles anos a questão de se aproximar de uma sociedade comunista se tornou parte da agenda cubana em termos de: ‘nós temos que construir o socialismo e o comunismo ao mesmo tempo’. Aquela ideia se tornou predominante e fez Cuba eliminar os 60 mil negócios privados que haviam sobrado.
Raúl Castro está promovendo um sistema mais descentralizado, e eu penso que esse é o sistema que Che Guevara queria: ter um setor público que pudesse ser mais eficiente.
(Em um encontro com os Estados Unidos em 1961) Che Guevara estava dizendo que não faria nenhuma mudança em nosso sistema, mas estamos prontos para discutir qualquer outra coisa. Na metade da Guerra Fria, a mensagem que Che Guevara estava enviando ao governo Kennedy era ‘nós queremos paz, nós queremos dialogar e nós queremos negociar’.
Se o socialismo só consegue sobreviver em uma ‘urna de vidro’ (em um país isolado), é impossível ele se sustentar.
Nesta manhã eu estava em uma palestra com uma multidão de jovens e muitos citavam Che Guevara ao falar de nossos problemas atuais. Isso significa que seu pensamento está vivo.
Por Pragmatismo Politico
Às vésperas do que promete ser um encontro histórico entre os presidentes cubano, Raúl Castro, e americano, Barack Obama, na Cúpula das Américas, no Panamá, alguns críticos questionam se uma aproximação entre Havana e Washington não seria uma traição ao passado revolucionário da ilha.
Há mais de 50 anos, uma revolução liderada por Fidel Castro, irmão de Raúl, derrubou um governo apoiado pelos Estados Unidos e colocou em prática seus ideais comunistas.
Uma figura importante nessa transição em Cuba foi Che Guevara, que se tornou referência mundial como símbolo de revolução socialista.
Agora, o mundo observa o líder cubano fazendo um acordo com os Estados Unidos, abrindo as portas para uma nova relação entre os dois países – e o eventual fim do embargo econômico à ilha.
Mas o que Che Guevara, um dos principais ideólogos da implantação do comunismo em Cuba – que ele via como um ponto de partida para uma revolução contra o capitalismo em todo o continente latino-americano – pensaria dessa nova realidade?
Para responder a essa pergunta, a rede BBC ouviu quatro especialistas em Cuba e Che Gevara:
1. Lucia Alvarez de Toledo, biógrafa de Che Guevara
‘Che detestava os Estados Unidos’
Che é a alma de Cuba. Ele é o espírito da nação, é inacreditável, ele está em todo lugar.
Ele articulou o que eu pensava. Eu estava cercada por aqueles horríveis americanos, e nós éramos como uma colônia, pelo amor de Deus.
Nós produzimos este homem que falava, pensava e era como nós, claro que amávamos ele.
Ele detestava (os Estados Unidos), porque via pobreza extrema em um continente que não precisava ser pobre.
Quando a revolução triunfou, qualquer um que estivesse envolvido com os americanos foi expulso.
(Hoje) Che diria que a revolução cubana está tão firmemente entrincheirada que ninguém pode tirá-la (dos cubanos), ninguém pode tirar seu serviço de saúde pública, ninguém pode tirar sua educação. Eu me sinto bem com isso porque a revolução é sólida.
Ele diria: eles acordaram, perceberam seus erros. Porque são os americanos que perceberam que seu comportamento não os beneficiou, e eles agora vão mudar.
2. Louis Perez, diretor de Estudos da América Latina na universidade da Carolina do Norte
EUA querem que o povo cubano seja agente da mudança
Há esta crença histórica e cultural nos Estados Unidos de que o destino de Cuba pertence a eles. Basicamente, Cuba foi uma ilha tropical que existia para servir ao prazer americano.
O clamor da revolução por legitimidade moral e poder político foi sua capacidade de reivindicar soberania nacional e autodeterminação.
Em um período de 24 meses, a nova liderança de Cuba mudou o propósito do governo cubano para servir interesses cubanos: Cuba para os cubanos.
A derrubada do governo cubano era o objetivo primordial da política americana entre 1960 e dezembro de 2014. Para isso produziram dificuldades econômicas para tornar a vida o mais difícil possível para o povo cubano. Na esperança de que eles entrariam em desespero, derrubar o governo e assim produzir o resultado esperado pelos Estados Unidos.
A nova abordagem procura dar poder ao povo de Cuba para fazê-los largar da dependência do governo cubano e assim servir como agentes internos para mudança política.
Cuba poderia ser inundada com capital, turistas e produtos americanos. Agora resta ver como será a relação entre os cubanos e esse novo ambiente social e econômico.
Para se ter uma noção da resposta de Che, veja a carta que Fidel Castro escreveu (ela foi publicada no jornal estatal de Cuba em janeiro) na qual ele apoia a transição com má vontade. Ele reconhece a necessidade inevitável de reconciliação com os Estados Unidos, mas continua a ser muito, muito, cauteloso.
3. Carmelo Mesa-Lago, professor de economia na Universidade de Pittsburgh
Che Guevara um mito do passado
Quando a União Soviética se desintegrou em 1990, Cuba entrou em uma grave crise econômica, a pior desde a Grande Depressão. Fidel não teve outra alternativa além de fazer reformas: ele legalizou a circulação do dólar e investiu no setor de turismo para receber estrangeiros.
Empregos privados e um mercado agrícola foram permitidos. Isso gerou efeitos positivos na economia.
Fidel nunca gostou dessas reformas orientadas pelo mercado, ele simplesmente nunca teve outra alternativa.
Cuba está se privatizando. Eles anunciaram em 2010 que teriam que demitir 1,8 milhão de trabalhadores no setor estatal. Isso representa 36% da força de trabalho.
Agora é possível comprar e vender casas, os cubanos podem ter uma segunda casa no campo ou na praia. O Estado mantém a posse da terra, mas dá contratos de dez anos para fazendeiros para que eles possam investir na terra. Che se oporia a isso.
Raúl percebeu há um tempo atrás que o sistema não poderia continuar, mas Fidel estava no comando, e ele não poderia ir contra Fidel. Quando ele assumiu, gradualmente começou a implementar as reformas.
Che Guevara era um idealista e poderia dizer que Raul está traindo a revolução.
(Mas) ninguém em Cuba está pensando no que Che Guevara pensaria. As pessoas não querem sonhos. Elas apoiaram esse sistema por 54 anos. E agora querem comprar coisas, viajar, comprar suas casas.
Você encontra retratos de Che Guevara em qualquer lugar na América Latina. E claro que há um grande retrato de Che Guevara na Plaza de La Revolucion, que Fidel usava para falar com a nação. Mas é como uma brincadeira. É simplesmente um mito do passado.
4. Rafael Hernandez, editor chefe da revista cubana ‘Temas’
Reformas no ‘espírito do Che’
As visões de Che Guevara são mal entendidas. Nós não queríamos impor o modelo socialista soviético, mas criar um tipo diferente de sistema socialista e nesse sistema socialista havia uma presença legítima do setor privado.
Apenas em 1968 a Revolução Cubana nacionalizou os últimos pequenos negócios em Cuba. Em outras palavras, a Revolução Cubana conviveu com o setor privado por nove anos.
A Revolução Cubana em 1968 teve uma virada em direção a um movimento ideológico mais radical. Naqueles anos a questão de se aproximar de uma sociedade comunista se tornou parte da agenda cubana em termos de: ‘nós temos que construir o socialismo e o comunismo ao mesmo tempo’. Aquela ideia se tornou predominante e fez Cuba eliminar os 60 mil negócios privados que haviam sobrado.
Raúl Castro está promovendo um sistema mais descentralizado, e eu penso que esse é o sistema que Che Guevara queria: ter um setor público que pudesse ser mais eficiente.
(Em um encontro com os Estados Unidos em 1961) Che Guevara estava dizendo que não faria nenhuma mudança em nosso sistema, mas estamos prontos para discutir qualquer outra coisa. Na metade da Guerra Fria, a mensagem que Che Guevara estava enviando ao governo Kennedy era ‘nós queremos paz, nós queremos dialogar e nós queremos negociar’.
Se o socialismo só consegue sobreviver em uma ‘urna de vidro’ (em um país isolado), é impossível ele se sustentar.
Nesta manhã eu estava em uma palestra com uma multidão de jovens e muitos citavam Che Guevara ao falar de nossos problemas atuais. Isso significa que seu pensamento está vivo.
Por Pragmatismo Politico
terça-feira, 7 de abril de 2015
Manifesto dos #JornalistasLivres
Do site dos Jornalistas Livres:
Nós somos @s #JornalistasLivres.
Quem Somos nós?
#JornalistasLivres somos uma rede de coletivos originada na diversidade. Existimos em contraponto à falsa unidade de pensamento e ação do jornalismo praticado pela mídia tradicional centralizada e centralizadora. Pensamos com nossas próprias cabeças, cada um(a) de nós com sua própria cabeça. Os valores que nos unem são o amor apaixonado pela democracia e a defesa radical dos direitos humanos.
#JornalistasLivres nos opomos aos estratagemas da tradicional indústria jornalística (multi)nacional, que, antidemocrática por natureza, despreza o espírito jornalístico em favor de mal-disfarçados interesses empresariais e ideológicos, comerciais e privados, corporativos e corporativistas.
#JornalistasLivres não agimos orientad@s por patrão, chefe, editor, marqueteiro ou censor. Somos noss@s própri@s patrões/patroas, somos noss@s própri@s empregad@s. Almejamos viver em liberdade e vivemos na busca incessante por liberdade.
#JornalistasLivres produzimos REPORTAGEM. Lamentamos o confinamento a que a indústria midiática relegou o mais nobre dos gêneros jornalísticos e trabalhamos para reduzir o abismo de desequilíbrio. A matéria-prima de nossas reportagens é HUMANA. Almejamos um jornalismo humano, humanizado e humanizador, ancorado principalmente em personagens da vida real (não só em estatísticas), na frondosa diversidade da vida dentro da floresta (não à distância robocop das tomadas aéreas panorâmicas), na fortuna das histórias (não dos cifrões).
#JornalistasLivres lutamos pela democratização da informação, da comunicação e da vida em sociedade, contra a ditadura de pensamento único instalada dentro das redações convencionais. Agimos por espírito público, jamais por interesses privados. Produzimos reportagem, crônica, análise, crítica, nunca publicidade ou lobby privado. Somos jornalistas-cidadãs e jornalistas-cidadãos, comprometid@s a informar sob a égide da cidadania e do combate às desigualdades. Trazemos notícias d@s frac@s e oprimid@s, sabendo que individualmente também somos frac@s e oprimid@s, mas TOD@S JUNT@S SOMOS FORTES.
#JornalistasLivres acreditamos que a história da qual participamos, todos os dias, precisa ser contada a partir de muitos pontos de vista. Somos ambicios@s a respeito das narrativas do nosso tempo. Fazemos o registro da história e das histórias e não aceitamos que a realidade seja registrada somente pelos que detêm o poder econômico, político e cultural.
#JornalistasLivres não observamos os fatos como se estivéssemos deles distantes e alienad@s. Sabemos que a mídia, o jornalismo e @s jornalistas interferem diretamente naquilo que documentamos, reportamos e interpretamos. Não nos anulamos, não nos apagamos das fotografias, não nos escondemos atrás dos fatos para manipulá-los. Nos assumimos como participantes ativ@s dos fatos que reportamos. Participamos da realidade como cidadãos e cidadãs movid@s pelo interesse coletivo: transparentes, franc@s, abert@s, democrátic@s.
#JornalistasLivres não competimos entre nós. #JornalistasLivrescolaboramos uns com as outras e com a sociedade a que nos apresentamos como trabalhadoras e trabalhadores.
#JornalistasLivres abominamos a hierarquia, o autoritarismo, o patrimonialismo, o patriarcalismo. #JornalistasLivres prezamos a descentralização em uma sociedade horizontal, igualitária, fraternal. Sob o guarda-chuva d@s #JornalistasLivres cabemos VOCÊ e brasileir@s de todos os quadrantes, dos interiores e dos litorais, das florestas e dos sertões, das roças e das cidades, das periferias e dos centros, além de tod@s @s brasileir@s expatriad@s e @s não-brasileir@s que adotaram o Brasil como sua casa.
#JornalistasLivres somos uma rede que funciona a partir do conceito de rede distribuída, não tem centro, não tem intermediários. Tod@s @s#JornalistasLivres somos pontos importantes em um mesmo nível de acesso à informação, manifestação, ação, decisão e responsabilidade. Apostamos na multiplicação de nós mesm@s e no livre compartilhamento do que produzimos, salvaguardados o compromisso ético e os direitos individuais de autoria. Convidamos tod@s a se somarem na construção desse processo colaborativo, a organizer seus próprios coletivos em seus estados, cidades, bairros, comunidades, a ser #JornalistasLivres.
#JornalistasLivres nos horrorizamos diante de quaisquer preconceitos e vivemos para combatê-los. Somos mulheres, homens, cisgêneros, transexuais, não-binári@s, negr@s, branc@s, amarel@s, mestiç@s, indígenas, quilombolas, caiçaras, lésbicas, gays, homossexuais, bissexuais, heterossexuais, polissexuais, assexuais, religios@s, ateus, agnostic@s, pobres, remediad@s, ric@s, velh@s, jovens, de meia-idade, experientes, novat@s, alun@s, professores, arraigad@s, nômades, cigan@s, INDECIS@S. Existimos para trazer notícias desses povos, de todos os povos.Combatemos frontalmente a misoginia, o racismo, a homofobia, a lesbofobia, a transfobia, as fobias, os preconceitos de origem social, o fascismo, a desigualdade, o ódio à democracia e à coexistência democrática. Defendemos a liberdade religiosa individual como defendemos a laicidade do Estado. Somos libertári@s e prezamos a memória, a verdade, a justiça, a solidariedade.
#JornalistasLivres nos indignamos profundamente com a desigualdade racial vigente neste país de maioria afrodescendente que teima em afirmar que “não somos racistas”. Afirmamos a urgência do combate à discriminação racial e social, ao genocídio da população negra, à desumanidade carcerária.
#JornalistasLivres sabemos que escutar é o maior dom d@s jornalistas.#JornalistasLivres falamos e nos expressamos, mas acima de tudo ESCUTAMOS a polifonia de vozes ao nosso redor (e, inclusive, dentro de nós mesm@s). Praticamos um diálogo, uma algazarra polifônica, jamais um monólogo.
#JornalistasLivres não carregamos certezas. Não sabemos mais do que VOCÊ. Não somos don@s da verdade, de nenhuma verdade. Pedimos a VOCÊ que, a um só tempo, acredite e duvide do que escrevemos, falamos, gravamos, reportamos. Queremos disseminar ideias e, entre elas, a ideia de que o que produzimos serve ao diálogo e ao debate, nunca para decretar a ninguém o que pensar ou como agir.
#JornalistasLivres temos lado (cada uma de nós tem seus próprios lados). Individualmente, não somos neutr@s, isent@s, apartidári@s, branc@s ou nul@s. Nossa pluralidade é resultado do agrupamento de todos nós, não da ruptura interna de nossos corpos e mentes individuais.
#JornalistasLivres sabemos que tod@ cidadã e cidadão se torna um(a) jornalista quando está munid@ de sua rede social, de seu blog, de seu telefone celular, de sua câmera filmadora, de suas próprias ideias. Estamos convict@s de que a realidade lá fora é a soma complexa, desierarquizada e contraditória de todos os nossos olhares, escutares e falares aqui dentro.
#JornalistasLivres acreditamos no jornalismo como fonte de conhecimento transformador, de superação das desigualdades e de construção de um mundo menos autoritário e menos concentrado nas mãos de um poderio militar, econômico e midiático. #JornalistasLivres não toleramos manipulações midiáticas, impérios, ditaduras.#JornalistasLivresqueremos os povos unidos, fortes e soberanos — em especial os da América Latina, porque aqui vivemos.
#JornalistasLivres amamos a cultura, a arte, a cidadania, a política, a memória, a história, o cotidiano, o convívio. #JornalistasLivres amamos, não odiamos — mas sabemos enfrentar os que odeiam.#JornalistasLivrespraticamos a observação do cotidiano e o senso crítico sob o prisma do SIM, mais do que o do NÃO. Nosso jornalismo é afirmativo, jamais reativo ou reacionário. Não somos jornalistas contra (tudo e todos), somos jornalistas a favor (da justiça, do aprimoramento humano, da convivência em sociedade, da troca, da alegria, da felicidade, da sexualidade, da paixão, do amor, da luta por um planeta mais limpo para as gerações que virão).
Nós somos @s #JornalistasLivres.
POR Altamiro Borges
Nós somos @s #JornalistasLivres.
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#JornalistasLivres lutamos pela democratização da informação, da comunicação e da vida em sociedade, contra a ditadura de pensamento único instalada dentro das redações convencionais. Agimos por espírito público, jamais por interesses privados. Produzimos reportagem, crônica, análise, crítica, nunca publicidade ou lobby privado. Somos jornalistas-cidadãs e jornalistas-cidadãos, comprometid@s a informar sob a égide da cidadania e do combate às desigualdades. Trazemos notícias d@s frac@s e oprimid@s, sabendo que individualmente também somos frac@s e oprimid@s, mas TOD@S JUNT@S SOMOS FORTES.
#JornalistasLivres acreditamos que a história da qual participamos, todos os dias, precisa ser contada a partir de muitos pontos de vista. Somos ambicios@s a respeito das narrativas do nosso tempo. Fazemos o registro da história e das histórias e não aceitamos que a realidade seja registrada somente pelos que detêm o poder econômico, político e cultural.
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#JornalistasLivres abominamos a hierarquia, o autoritarismo, o patrimonialismo, o patriarcalismo. #JornalistasLivres prezamos a descentralização em uma sociedade horizontal, igualitária, fraternal. Sob o guarda-chuva d@s #JornalistasLivres cabemos VOCÊ e brasileir@s de todos os quadrantes, dos interiores e dos litorais, das florestas e dos sertões, das roças e das cidades, das periferias e dos centros, além de tod@s @s brasileir@s expatriad@s e @s não-brasileir@s que adotaram o Brasil como sua casa.
#JornalistasLivres somos uma rede que funciona a partir do conceito de rede distribuída, não tem centro, não tem intermediários. Tod@s @s#JornalistasLivres somos pontos importantes em um mesmo nível de acesso à informação, manifestação, ação, decisão e responsabilidade. Apostamos na multiplicação de nós mesm@s e no livre compartilhamento do que produzimos, salvaguardados o compromisso ético e os direitos individuais de autoria. Convidamos tod@s a se somarem na construção desse processo colaborativo, a organizer seus próprios coletivos em seus estados, cidades, bairros, comunidades, a ser #JornalistasLivres.
#JornalistasLivres nos horrorizamos diante de quaisquer preconceitos e vivemos para combatê-los. Somos mulheres, homens, cisgêneros, transexuais, não-binári@s, negr@s, branc@s, amarel@s, mestiç@s, indígenas, quilombolas, caiçaras, lésbicas, gays, homossexuais, bissexuais, heterossexuais, polissexuais, assexuais, religios@s, ateus, agnostic@s, pobres, remediad@s, ric@s, velh@s, jovens, de meia-idade, experientes, novat@s, alun@s, professores, arraigad@s, nômades, cigan@s, INDECIS@S. Existimos para trazer notícias desses povos, de todos os povos.Combatemos frontalmente a misoginia, o racismo, a homofobia, a lesbofobia, a transfobia, as fobias, os preconceitos de origem social, o fascismo, a desigualdade, o ódio à democracia e à coexistência democrática. Defendemos a liberdade religiosa individual como defendemos a laicidade do Estado. Somos libertári@s e prezamos a memória, a verdade, a justiça, a solidariedade.
#JornalistasLivres nos indignamos profundamente com a desigualdade racial vigente neste país de maioria afrodescendente que teima em afirmar que “não somos racistas”. Afirmamos a urgência do combate à discriminação racial e social, ao genocídio da população negra, à desumanidade carcerária.
#JornalistasLivres sabemos que escutar é o maior dom d@s jornalistas.#JornalistasLivres falamos e nos expressamos, mas acima de tudo ESCUTAMOS a polifonia de vozes ao nosso redor (e, inclusive, dentro de nós mesm@s). Praticamos um diálogo, uma algazarra polifônica, jamais um monólogo.
#JornalistasLivres não carregamos certezas. Não sabemos mais do que VOCÊ. Não somos don@s da verdade, de nenhuma verdade. Pedimos a VOCÊ que, a um só tempo, acredite e duvide do que escrevemos, falamos, gravamos, reportamos. Queremos disseminar ideias e, entre elas, a ideia de que o que produzimos serve ao diálogo e ao debate, nunca para decretar a ninguém o que pensar ou como agir.
#JornalistasLivres temos lado (cada uma de nós tem seus próprios lados). Individualmente, não somos neutr@s, isent@s, apartidári@s, branc@s ou nul@s. Nossa pluralidade é resultado do agrupamento de todos nós, não da ruptura interna de nossos corpos e mentes individuais.
#JornalistasLivres sabemos que tod@ cidadã e cidadão se torna um(a) jornalista quando está munid@ de sua rede social, de seu blog, de seu telefone celular, de sua câmera filmadora, de suas próprias ideias. Estamos convict@s de que a realidade lá fora é a soma complexa, desierarquizada e contraditória de todos os nossos olhares, escutares e falares aqui dentro.
#JornalistasLivres acreditamos no jornalismo como fonte de conhecimento transformador, de superação das desigualdades e de construção de um mundo menos autoritário e menos concentrado nas mãos de um poderio militar, econômico e midiático. #JornalistasLivres não toleramos manipulações midiáticas, impérios, ditaduras.#JornalistasLivresqueremos os povos unidos, fortes e soberanos — em especial os da América Latina, porque aqui vivemos.
#JornalistasLivres amamos a cultura, a arte, a cidadania, a política, a memória, a história, o cotidiano, o convívio. #JornalistasLivres amamos, não odiamos — mas sabemos enfrentar os que odeiam.#JornalistasLivrespraticamos a observação do cotidiano e o senso crítico sob o prisma do SIM, mais do que o do NÃO. Nosso jornalismo é afirmativo, jamais reativo ou reacionário. Não somos jornalistas contra (tudo e todos), somos jornalistas a favor (da justiça, do aprimoramento humano, da convivência em sociedade, da troca, da alegria, da felicidade, da sexualidade, da paixão, do amor, da luta por um planeta mais limpo para as gerações que virão).
Nós somos @s #JornalistasLivres.
POR Altamiro Borges
domingo, 5 de abril de 2015
A luta por espaço para o rádio e a TV
Por Laurindo Lalo Leal Filho, na Revista do Brasil:
Disputas por territórios são contínuas na história da humanidade, dos tempos pré-históricos aos dias de hoje. A maioria sangrentas, muitas tornaram-se eternas, documentadas por historiadores ou romanceadas por grandes escritores. São territórios visíveis, quase sempre delimitados por fronteiras precisas, muito claras, pelas quais só se passa munido de autorização de quem as controla. Criam-se Estados nacionais e organizações multilaterais para dar um mínimo de estabilidade a esse tipo de posse, o que não exclui a permanência constante de disputas em várias regiões do planeta.
Mas se no caso da terra a luta por sua ocupação é visível a olho nu, existe uma outra disputa territorial, igualmente feroz, que passa despercebida. Trata-se da conquista de porções do espectro eletromagnético, um espaço invisível ao olhar humano, tão ou mais valioso quanto inúmeros pedaços de terra.
Seu valor advém da possibilidade de permitir que nele trafeguem ondas radioelétricas capazes de transportar sons e imagens ao redor do mundo através do rádio, da TV, da telefonia. Carregam mensagens comerciais, políticas e religiosas cujos valores são determinados, em última análise, pelo mercado.
Dessa forma, para que essas mensagens se realizem enquanto mercadoria é necessária a utilização de um bem público, escasso e finito. O espectro, por mais que a tecnologia avance com a multiplicação do seu uso graças a digitalização, tem um limite. Ocupá-lo, portanto, é um grande privilégio. Cabe ao Estado, em nome da sociedade, regulá-lo para tornar o seu uso democrático. Infelizmente no Brasil, contando com a histórica tibiez dos governos, vale a lei dos mais fortes, os grandes grupos de mídia, donos de praticamente todo o espaço. Há, no entanto, exceções que confirmam a regra. Uma delas é a obtenção de uma pequena fatia do espectro por uma organização independente do mercado: a TVT, TV dos Trabalhadores.
Sua trajetória forjou-se nas greves do ABC do final dos anos 1970, quando os trabalhadores perceberam as distorções contidas nos noticiários das redes comerciais. Começou como uma produtora de vídeo, tornando-se depositária da importante memória daquela época. Faltava, no entanto, o canal para levar diretamente ao público uma visão mais honesta dos acontecimentos. Para isso era necessária a tal fatia do espectro, conseguida após 23 anos de luta, período no qual foram negados cinco pedidos de concessão, quatro no governo José Sarney e uma no de Fernando Henrique Cardoso. O tempo decorrido entre o pedido inicial e a outorga evidencia o nível acirrado da disputa.
O próprio Lula, responsável pelo pedido inicial, quando deputado federal, e autor da concessão enquanto presidente da República, contou durante a festa de inauguração do canal digital da TVT, em março, das dificuldades enfrentadas para colocar em prática sua decisão. Entre a assinatura da outorga feita por ele e sua efetivação passaram-se cinco anos, numa demonstração de que a luta pelo espaço trava-se dentro da própria burocracia governamental.
A regulação do espectro para acabar com privilégios é tarefa imprescindível e urgente para o jogo democrático. Para isso, basta dividi-lo em três partes atendendo aos sistemas de rádio e teledifusão estabelecidos pela Constituição: uma para o sistema público (canais públicos e comunitários), outra para o sistema privado (emissoras comerciais) e a terceira para o sistema estatal (canais dos poderes do Estado).
Caberia ainda ao Estado, como ocorre em vários países, criar o “operador de rede”, pelo qual trafegariam os sinais de todas as emissoras. A elas caberia apenas a produção de conteúdos, ficando o “operador” com a incumbência da transmissão. Isso desobrigaria emissoras não comerciais de arcar com um custo que, muitas vezes, inviabiliza a sua própria existência.
A vitória obtida pela TVT, ainda que o território ocupado seja pequeno, é uma importante cabeça de ponte para que a luta em busca da democratização do espectro siga em frente, acabando com o uso privado e privilegiado desse importante bem público.
POR Altamiro borges
Disputas por territórios são contínuas na história da humanidade, dos tempos pré-históricos aos dias de hoje. A maioria sangrentas, muitas tornaram-se eternas, documentadas por historiadores ou romanceadas por grandes escritores. São territórios visíveis, quase sempre delimitados por fronteiras precisas, muito claras, pelas quais só se passa munido de autorização de quem as controla. Criam-se Estados nacionais e organizações multilaterais para dar um mínimo de estabilidade a esse tipo de posse, o que não exclui a permanência constante de disputas em várias regiões do planeta.
Mas se no caso da terra a luta por sua ocupação é visível a olho nu, existe uma outra disputa territorial, igualmente feroz, que passa despercebida. Trata-se da conquista de porções do espectro eletromagnético, um espaço invisível ao olhar humano, tão ou mais valioso quanto inúmeros pedaços de terra.
Seu valor advém da possibilidade de permitir que nele trafeguem ondas radioelétricas capazes de transportar sons e imagens ao redor do mundo através do rádio, da TV, da telefonia. Carregam mensagens comerciais, políticas e religiosas cujos valores são determinados, em última análise, pelo mercado.
Dessa forma, para que essas mensagens se realizem enquanto mercadoria é necessária a utilização de um bem público, escasso e finito. O espectro, por mais que a tecnologia avance com a multiplicação do seu uso graças a digitalização, tem um limite. Ocupá-lo, portanto, é um grande privilégio. Cabe ao Estado, em nome da sociedade, regulá-lo para tornar o seu uso democrático. Infelizmente no Brasil, contando com a histórica tibiez dos governos, vale a lei dos mais fortes, os grandes grupos de mídia, donos de praticamente todo o espaço. Há, no entanto, exceções que confirmam a regra. Uma delas é a obtenção de uma pequena fatia do espectro por uma organização independente do mercado: a TVT, TV dos Trabalhadores.
Sua trajetória forjou-se nas greves do ABC do final dos anos 1970, quando os trabalhadores perceberam as distorções contidas nos noticiários das redes comerciais. Começou como uma produtora de vídeo, tornando-se depositária da importante memória daquela época. Faltava, no entanto, o canal para levar diretamente ao público uma visão mais honesta dos acontecimentos. Para isso era necessária a tal fatia do espectro, conseguida após 23 anos de luta, período no qual foram negados cinco pedidos de concessão, quatro no governo José Sarney e uma no de Fernando Henrique Cardoso. O tempo decorrido entre o pedido inicial e a outorga evidencia o nível acirrado da disputa.
O próprio Lula, responsável pelo pedido inicial, quando deputado federal, e autor da concessão enquanto presidente da República, contou durante a festa de inauguração do canal digital da TVT, em março, das dificuldades enfrentadas para colocar em prática sua decisão. Entre a assinatura da outorga feita por ele e sua efetivação passaram-se cinco anos, numa demonstração de que a luta pelo espaço trava-se dentro da própria burocracia governamental.
A regulação do espectro para acabar com privilégios é tarefa imprescindível e urgente para o jogo democrático. Para isso, basta dividi-lo em três partes atendendo aos sistemas de rádio e teledifusão estabelecidos pela Constituição: uma para o sistema público (canais públicos e comunitários), outra para o sistema privado (emissoras comerciais) e a terceira para o sistema estatal (canais dos poderes do Estado).
Caberia ainda ao Estado, como ocorre em vários países, criar o “operador de rede”, pelo qual trafegariam os sinais de todas as emissoras. A elas caberia apenas a produção de conteúdos, ficando o “operador” com a incumbência da transmissão. Isso desobrigaria emissoras não comerciais de arcar com um custo que, muitas vezes, inviabiliza a sua própria existência.
A vitória obtida pela TVT, ainda que o território ocupado seja pequeno, é uma importante cabeça de ponte para que a luta em busca da democratização do espectro siga em frente, acabando com o uso privado e privilegiado desse importante bem público.
POR Altamiro borges
Páscoa e a publicidade infantil
Por Lais Fontenelle, no site Outras Palavras:
Todo ano é a mesma coisa. Mal sai de cena o bom velhinho – incitando as crianças a desejar, e as famílias a comprar – e já entram o coelho e seus ovos. Entre as duas datas temos ainda o carnaval, que enche as vitrines mas também as ruas de cultura popular e alegria. Esse ano, contudo, algo surpreendente aconteceu. Ovos de chocolate decoravam prateleiras de supermercado ao redor do país já nas quentes férias de janeiro, antecipando a Páscoa. E por que isso aconteceu? Não é uma data fixa, 40 dias depois do carnaval? Seria porque as vendas de fim de ano não renderam bons lucros? Seriam as férias escolares o motivo? A resposta é difícil para nós, mas o mercado sabe, com certeza, o exato porquê.
Há tempos a Páscoa deixou de ter caráter religioso para tornar-se uma época de lucro, principalmente com o público infantil, da mesma forma que o Natal e o Dia das Crianças. E os ovos de Páscoa estão a cada ano mais caros, porque vêm acompanhados de brinquedos atrativos aos olhos da criançada, que geralmente desconhece o sentido da data. Com importante significado para as religiões católica e judaica, a Páscoa remete a renovação e transformação – sentidos bem distantes do imposto pela mercantilização: consumo excessivo de gordura, açúcar e brindes.
Os túneis de ovos de chocolate nos supermercados costumavam ser o anúncio da chegada da Páscoa. Hoje, contudo, além dos brinquedos que vêm com o ovo, há novas estratégias publicitárias para atrair os olhos dos pequenos. Comerciais na TV mostram brinquedos em embalagens de acrílico em formato de ovo, para que a criança peça um brinquedo ao invés de um simples chocolate. Sem contar os seus personagens favoritos nas embalagens – estratégia que segue exatamente o que indica pesquisa da Interscience, que revela ser a publicidade na TV, seguida por embalagens e personagens famosos, os principais fatores de consumo entre as crianças.
Como se o estrago causado por tudo isso não bastasse, os conhecidos corredores de ovos ganharam este ano um novo ingrediente: setorizados por cores, dividem em azul e rosa os desejos de meninos e meninas, na contramão de tudo o que tem sido discutido contra a diferenciação de gêneros desde tenra idade. Mais parecendo corredores de lojas de brinquedos, exibem um amontoado de brindes que recheiam os ovos – de bonecos licenciados a mini-rádios e gloss labial.
Os brinquedos são objetos simples como canecas, maletinhas, bonecos pequenos, normalmente de plástico e pouca durabilidade. Mas, que criança que não vai querer ter mais um super-herói ou princesa em casa? Outra questão, apontada por levantamento do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) de 2010, é que o uso de personagens tende a encarecer o ovo, levando os pais a gastarem mais para agradar os filhos. Isso, num país desigual como o nosso, em que os ovos com brindes são anunciados indiscriminadamente a todas as classes sociais, causa problemas de orçamento. Se compararmos o preço de um chocolate de 150 gramas com o de um ovo, chega a custar cinco, seis, até sete vezes mais. O brinquedo, portanto, não é brinde, mas aquilo que se configura como venda casada.
Vocês podem estar se perguntando sobre qual o problema em presentear as crianças, ocasionalmente, com ovos de chocolate. Vou além dos aspectos éticos e filosóficos. A começar pelo fato de que, embora ovos de páscoa sejam considerados produtos “sazonais”, consumidos em época específica do ano, o incentivo ao seu consumo pelas crianças, para que colecionem brinquedos, é sem dúvida preocupante num país com índices cada vez mais alarmantes de obesidade infantil. Segundo dados da Pesquisa de Orçamento Familiar 2008-2009, conduzida pelo IBGE e lançada em dezembro de 2010, 33,5% da população brasileira entre 5 e 9 anos já está com excesso de peso e 14,3%, obesa. Outro, ainda mais alarmante, revela que, pela primeira vez na história, um número crescente de crianças apresenta problemas de coração, de respiração e diabetes tipo 2, todos relacionados à obesidade. Esses dados bastariam.
Vou além, lembrando que dirigir publicidade a um público menor de doze anos fere a legislação, principalmente depois da promulgação da Resolução 163 do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos das Crianças e Adolescentes) em abril de 2014 – que aliás aniversaria na Páscoa. A resolução jogou luz na legislação vigente, que considera publicidade abusiva nos termos do artigo 37, parágrafo 2º do Código de Defesa do Consumidor (CDC), além de ofender a proteção integral de que são titulares todas as crianças, segundo o artigo 227 da Constituição Federal. Não se pode ainda esquecer que a venda conjugada de produtos, sem dar opção ao consumidor, é também proibida pelo ordenamento jurídico brasileiro, por configurar-se em “venda casada”.
Vale destacar que a publicação da norma, ano passado, foi amplamente divulgada pelos meios de comunicação e alvo de intenso debate entre a sociedade civil e parte dos mercados publicitário e anunciante. E ganhou ainda mais notoriedade quando o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) escolheu a publicidade infantil como tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em dezembro, levando mais de 8 milhões de jovens a debruçar-se sobre o tema. Dessa forma, podemos dizer que 2014 foi um ano simbólico e vitorioso para a defesa dos direitos das crianças no Brasil. Contudo, o que temos observado na prática, principalmente nesse período de Páscoa, é a persistência da veiculação, antiética e ilegal, de publicidade voltada a um público indefeso – pela fase peculiar de desenvolvimento na qual se encontra.
Não conseguiremos localizar onde e quando perdemos o sentido da Páscoa e de tantas outras comemorações. Mas certamente a mercantilização desta festa tem contribuído para que outros sentidos se percam, fazendo-se necessária e urgente uma reflexão sobre quais valores estamos passando às crianças. Pensando nisso, vale lembrar que em diferentes lugares do mundo a Páscoa é comemorada de formas distintas e não menos doces. Podemos fazer ovos pintados em casa, comprar de quem produz e inventar brincadeiras como a caça aos ovos para tornar a celebração mais sustentável e sem excessos.
Esperamos que em 2015 a fiscalização da resolução do Conanda se torne efetiva, com a sociedade civil fazendo a sua parte, ao denunciar as práticas abusivas de publicidade dirigida às crianças. Um bom exemplo é a recente campanha de Páscoa do Movimento Infância Livre de Consumismo, pedindo que os consumidores boicotem os produtos estampados nos túneis e façam mais reclamações das empresas no Procon de sua cidade ou em órgãos como o Idec, Ministério Público Federal e Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana. Esta Páscoa, quando a Resolução do Conanda completa um ano, é um bom momento para comemorar e praticar, de fato, um novo paradigma na efetivação dos direitos das crianças.
Por Altamiro Borges
Todo ano é a mesma coisa. Mal sai de cena o bom velhinho – incitando as crianças a desejar, e as famílias a comprar – e já entram o coelho e seus ovos. Entre as duas datas temos ainda o carnaval, que enche as vitrines mas também as ruas de cultura popular e alegria. Esse ano, contudo, algo surpreendente aconteceu. Ovos de chocolate decoravam prateleiras de supermercado ao redor do país já nas quentes férias de janeiro, antecipando a Páscoa. E por que isso aconteceu? Não é uma data fixa, 40 dias depois do carnaval? Seria porque as vendas de fim de ano não renderam bons lucros? Seriam as férias escolares o motivo? A resposta é difícil para nós, mas o mercado sabe, com certeza, o exato porquê.
Há tempos a Páscoa deixou de ter caráter religioso para tornar-se uma época de lucro, principalmente com o público infantil, da mesma forma que o Natal e o Dia das Crianças. E os ovos de Páscoa estão a cada ano mais caros, porque vêm acompanhados de brinquedos atrativos aos olhos da criançada, que geralmente desconhece o sentido da data. Com importante significado para as religiões católica e judaica, a Páscoa remete a renovação e transformação – sentidos bem distantes do imposto pela mercantilização: consumo excessivo de gordura, açúcar e brindes.
Os túneis de ovos de chocolate nos supermercados costumavam ser o anúncio da chegada da Páscoa. Hoje, contudo, além dos brinquedos que vêm com o ovo, há novas estratégias publicitárias para atrair os olhos dos pequenos. Comerciais na TV mostram brinquedos em embalagens de acrílico em formato de ovo, para que a criança peça um brinquedo ao invés de um simples chocolate. Sem contar os seus personagens favoritos nas embalagens – estratégia que segue exatamente o que indica pesquisa da Interscience, que revela ser a publicidade na TV, seguida por embalagens e personagens famosos, os principais fatores de consumo entre as crianças.
Como se o estrago causado por tudo isso não bastasse, os conhecidos corredores de ovos ganharam este ano um novo ingrediente: setorizados por cores, dividem em azul e rosa os desejos de meninos e meninas, na contramão de tudo o que tem sido discutido contra a diferenciação de gêneros desde tenra idade. Mais parecendo corredores de lojas de brinquedos, exibem um amontoado de brindes que recheiam os ovos – de bonecos licenciados a mini-rádios e gloss labial.
Os brinquedos são objetos simples como canecas, maletinhas, bonecos pequenos, normalmente de plástico e pouca durabilidade. Mas, que criança que não vai querer ter mais um super-herói ou princesa em casa? Outra questão, apontada por levantamento do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) de 2010, é que o uso de personagens tende a encarecer o ovo, levando os pais a gastarem mais para agradar os filhos. Isso, num país desigual como o nosso, em que os ovos com brindes são anunciados indiscriminadamente a todas as classes sociais, causa problemas de orçamento. Se compararmos o preço de um chocolate de 150 gramas com o de um ovo, chega a custar cinco, seis, até sete vezes mais. O brinquedo, portanto, não é brinde, mas aquilo que se configura como venda casada.
Vocês podem estar se perguntando sobre qual o problema em presentear as crianças, ocasionalmente, com ovos de chocolate. Vou além dos aspectos éticos e filosóficos. A começar pelo fato de que, embora ovos de páscoa sejam considerados produtos “sazonais”, consumidos em época específica do ano, o incentivo ao seu consumo pelas crianças, para que colecionem brinquedos, é sem dúvida preocupante num país com índices cada vez mais alarmantes de obesidade infantil. Segundo dados da Pesquisa de Orçamento Familiar 2008-2009, conduzida pelo IBGE e lançada em dezembro de 2010, 33,5% da população brasileira entre 5 e 9 anos já está com excesso de peso e 14,3%, obesa. Outro, ainda mais alarmante, revela que, pela primeira vez na história, um número crescente de crianças apresenta problemas de coração, de respiração e diabetes tipo 2, todos relacionados à obesidade. Esses dados bastariam.
Vou além, lembrando que dirigir publicidade a um público menor de doze anos fere a legislação, principalmente depois da promulgação da Resolução 163 do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos das Crianças e Adolescentes) em abril de 2014 – que aliás aniversaria na Páscoa. A resolução jogou luz na legislação vigente, que considera publicidade abusiva nos termos do artigo 37, parágrafo 2º do Código de Defesa do Consumidor (CDC), além de ofender a proteção integral de que são titulares todas as crianças, segundo o artigo 227 da Constituição Federal. Não se pode ainda esquecer que a venda conjugada de produtos, sem dar opção ao consumidor, é também proibida pelo ordenamento jurídico brasileiro, por configurar-se em “venda casada”.
Vale destacar que a publicação da norma, ano passado, foi amplamente divulgada pelos meios de comunicação e alvo de intenso debate entre a sociedade civil e parte dos mercados publicitário e anunciante. E ganhou ainda mais notoriedade quando o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) escolheu a publicidade infantil como tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em dezembro, levando mais de 8 milhões de jovens a debruçar-se sobre o tema. Dessa forma, podemos dizer que 2014 foi um ano simbólico e vitorioso para a defesa dos direitos das crianças no Brasil. Contudo, o que temos observado na prática, principalmente nesse período de Páscoa, é a persistência da veiculação, antiética e ilegal, de publicidade voltada a um público indefeso – pela fase peculiar de desenvolvimento na qual se encontra.
Não conseguiremos localizar onde e quando perdemos o sentido da Páscoa e de tantas outras comemorações. Mas certamente a mercantilização desta festa tem contribuído para que outros sentidos se percam, fazendo-se necessária e urgente uma reflexão sobre quais valores estamos passando às crianças. Pensando nisso, vale lembrar que em diferentes lugares do mundo a Páscoa é comemorada de formas distintas e não menos doces. Podemos fazer ovos pintados em casa, comprar de quem produz e inventar brincadeiras como a caça aos ovos para tornar a celebração mais sustentável e sem excessos.
Esperamos que em 2015 a fiscalização da resolução do Conanda se torne efetiva, com a sociedade civil fazendo a sua parte, ao denunciar as práticas abusivas de publicidade dirigida às crianças. Um bom exemplo é a recente campanha de Páscoa do Movimento Infância Livre de Consumismo, pedindo que os consumidores boicotem os produtos estampados nos túneis e façam mais reclamações das empresas no Procon de sua cidade ou em órgãos como o Idec, Ministério Público Federal e Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana. Esta Páscoa, quando a Resolução do Conanda completa um ano, é um bom momento para comemorar e praticar, de fato, um novo paradigma na efetivação dos direitos das crianças.
Por Altamiro Borges
sábado, 4 de abril de 2015
HSBC E ZELOTES ATINGEM CORAÇÃO DA DIREITA NO PAÍS
Juntos, os escândalos das contas secretas no HSBC (o chamado Swissleaks) e das propinas pagas para aliviar multas tributárias (a Operação Zelotes) fazem um strike em personalidades que alimentam o pensamento conservador no Brasil; na Zelotes, o grupo Gerdau, do empresário Jorge Gerdau, mantenedor do Instituto Millenium, aparece como pagante da maior propina (R$ 50 milhões); na mesma operação, está também a RBS, de Eduardo Sirotsky e Armínio Fraga (R$ 15 milhões), que é afiliada da Globo; no Swissleaks, um dos nomes é o de José Roberto Guzzo, diretor da Abril, que é também mantenedora do Millenium; a direita, no Brasil, não gosta de pagar impostos?
3 DE ABRIL DE 2015 ÀS 18:22
Dois escândalos recentes, batizados como Swissleaks e Zelotes, evidenciam uma realidade brasileira: ricos não gostam de pagar impostos, nem de declarar todo seu patrimônio.
O caso Swissleaks, alvo de uma CPI no Senado, envolve 8.667 brasileiros que mantêm ou mantiveram contas secretas na Suíça, no HSBC de Genebra.
A Operação Zelotes fisgou uma quadrilha especializada em vender facilidades no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o Carf, causando um prejuízo estimado em R$ 19 bilhões.
Os dois casos tratam de um mesmo fenômeno: sonegação fiscal. O que une as duas pontas é a presença de nomes ilustres da direita brasileira, que tentam impor uma agenda conservadora à toda sociedade.
Nesta sexta-feira, uma reportagem do jornal Estado de S. Paulo revelou que o grupo Gerdau, do empresário Jorge Gerdau, é suspeito de pagar a maior propina da Operação Zelotes: R$ 50 milhões para cancelar uma dívida tributária de R$ 4 bilhões. Um "bom negócio", com o pagamento de um real para cada 80 devidos (saiba mais aqui).
Gerdau é o principal mantenedor do Instituto Millenium, um instituto criado por empresários brasileiros para consolidar um pensamento único no País, alinhado à direita e ao neoconservadorismo.
Na página do Millenium, aparece como "grupo líder" (confira aqui), ao lado da Editora Abril, que publica Veja e cujo conselheiro editorial José Roberto Guzzo, um de seus principais articulistas, publicou artigo sobre como é insuportável viver no Brasil de hoje (leia aqui) – Guzzo, para quem não se lembra, foi um dos jornalistas citados no Swissleaks.
Voltando ao Millenium, abaixo do "grupo líder" aparece o "grupo apoio", onde desponta a RBS, afiliada da Globo na Região Sul, comandada por Eduardo Sirotsky. O envolmento da RBS, assim como o de Gerdau, é com a Operação Zelotes, onde a empresa teria pago uma propina de R$ 15 milhões para abater uma dívida de R$ 150 milhões. Um negócio bom para quem gosta de levar vantagem, mas não tão bom quanto o de Gerdau. No caso da RBS, a relação seria de um real pago para cada dez devidos.
Nesta sexta-feira, como lembrou Fernando Brito, editor do Tijolaço, a RBS é sócia de ninguém menos que o economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso e ex-futuro ministro da Fazenda de Aécio Neves (leia mais aqui).
Em sua página, o Instituto Millenium informa trabalhar pela promoção da democracia, da liberdade, do Estado de Direito e da economia de mercado. Mas, e os impostos?
POR Brasil247
3 DE ABRIL DE 2015 ÀS 18:22
Dois escândalos recentes, batizados como Swissleaks e Zelotes, evidenciam uma realidade brasileira: ricos não gostam de pagar impostos, nem de declarar todo seu patrimônio.
O caso Swissleaks, alvo de uma CPI no Senado, envolve 8.667 brasileiros que mantêm ou mantiveram contas secretas na Suíça, no HSBC de Genebra.
A Operação Zelotes fisgou uma quadrilha especializada em vender facilidades no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o Carf, causando um prejuízo estimado em R$ 19 bilhões.
Os dois casos tratam de um mesmo fenômeno: sonegação fiscal. O que une as duas pontas é a presença de nomes ilustres da direita brasileira, que tentam impor uma agenda conservadora à toda sociedade.
Nesta sexta-feira, uma reportagem do jornal Estado de S. Paulo revelou que o grupo Gerdau, do empresário Jorge Gerdau, é suspeito de pagar a maior propina da Operação Zelotes: R$ 50 milhões para cancelar uma dívida tributária de R$ 4 bilhões. Um "bom negócio", com o pagamento de um real para cada 80 devidos (saiba mais aqui).
Gerdau é o principal mantenedor do Instituto Millenium, um instituto criado por empresários brasileiros para consolidar um pensamento único no País, alinhado à direita e ao neoconservadorismo.
Na página do Millenium, aparece como "grupo líder" (confira aqui), ao lado da Editora Abril, que publica Veja e cujo conselheiro editorial José Roberto Guzzo, um de seus principais articulistas, publicou artigo sobre como é insuportável viver no Brasil de hoje (leia aqui) – Guzzo, para quem não se lembra, foi um dos jornalistas citados no Swissleaks.
Voltando ao Millenium, abaixo do "grupo líder" aparece o "grupo apoio", onde desponta a RBS, afiliada da Globo na Região Sul, comandada por Eduardo Sirotsky. O envolmento da RBS, assim como o de Gerdau, é com a Operação Zelotes, onde a empresa teria pago uma propina de R$ 15 milhões para abater uma dívida de R$ 150 milhões. Um negócio bom para quem gosta de levar vantagem, mas não tão bom quanto o de Gerdau. No caso da RBS, a relação seria de um real pago para cada dez devidos.
Nesta sexta-feira, como lembrou Fernando Brito, editor do Tijolaço, a RBS é sócia de ninguém menos que o economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso e ex-futuro ministro da Fazenda de Aécio Neves (leia mais aqui).
Em sua página, o Instituto Millenium informa trabalhar pela promoção da democracia, da liberdade, do Estado de Direito e da economia de mercado. Mas, e os impostos?
POR Brasil247
Os paraísos fiscais e a evasão tributária
Por Clair Hickmann, na revista Teoria e Debate:
A série de reportagens recentes sobre o caso SwissLeaks (vazamentos da Suíça) põe em destaque o problema dos paraísos fiscais, que possibilitam a evasão de divisas, a sonegação de tributos e a lavagem de dinheiro. Essas práticas produzem efeitos nocivos sobre as finanças dos demais países e representam uma ameaça às instituições democráticas. Com o objetivo de contribuir para o debate, apresentamos algumas propostas para enfrentar o problema.
Origem do caso
O episódio conhecido como SwissLeaks trata de um grande vazamento sobre contas bancárias secretas, mantidas no HSBC na Suíça durante os anos de 2006 e 2007. De acordo com as reportagens publicadas em diversos países, por meio do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), o banco abrigou cerca de US$ 100 bilhões de 106 mil clientes de 203 países. No caso do Brasil, são 6.606 contas bancárias que atendem a 8.667 clientes e um valor de aproximadamente de US$ 7 bilhões [1].
Os documentos foram vazados por um ex-funcionário do HSBC, Hervé Falciani, que retirou os dados do banco, em meio magnético, e os entregou às autoridades francesas em 2008.
Por que abrir uma conta secreta?
As contas secretas numeradas na Suíça são identificadas somente por um código alfanumérico e o nome dos titulares é conhecido apenas pelo alto escalão do banco. Isso significa que as contas não são completamente secretas ou anônimas; em conformidade com a legislação bancária internacional, a pessoa precisa comprovar sua identidade no ato de abertura da operação.
No caso dos vazamentos do HSBC da Suíça, o ex-funcionário, na função de técnico de informática, teve acesso inclusive aos nomes. Constam da lista empresários, banqueiros, barões da mídia, artistas, esportistas, políticos, doadores de campanha, doleiros, traficantes de armas e diamantes, executivos, empresas offshore com sede em paraísos fiscais, entre outros.
Em princípio, qualquer pessoa pode manter legalmente uma conta no exterior. É necessário, porém, declarar a conta no Imposto de Renda e informar ao Banco Central os valores remetidos para outro país.
Na maior parte dos casos, quem abre uma conta numerada na Suíça quer manter o sigilo porque o dinheiro provém de alguma atividade ilícita, como sonegação de tributos, lavagem de dinheiro, corrupção, tráfico de drogas ou armas e até terrorismo.
É possível que o dinheiro de parte dessas contas tenha origem lícita. No entanto, qual seria o motivo para abrir uma conta secreta?
Ações dos governos e recuperação de impostos e multas
Segundo o ICIJ, autoridades de diversos países investigam supostas evidências de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro envolvendo correntistas.
O Fisco da França, que recebeu as informações vazadas em 2008, passou a investigar todos os franceses citados por possível crime de evasão de divisas e sonegação de impostos. Segundo divulgações da mídia internacional [2] a investigação revelou que a filial suíça do HSBC ajudava clientes ricos a evadir o pagamento de impostos. O governo francês já recuperou cerca de US$ 600 milhões em impostos e multas.
Em 2010, o governo da França passou a compartilhar o acervo vazado do HSBC com outros países que demonstraram interesse. Bélgica, Espanha, Reino Unido e Argentina, entre outros, solicitaram acesso aos dados. A Bélgica já recuperou US$ 490 milhões e a Espanha, US$ 298 milhões.
Após a divulgação do SwissLeaks, um representante do governo brasileiro disse que solicitou ao governo francês o acesso aos dados dos clientes brasileiros.
Para evitar questionamentos de legalidade das informações, o ideal seria o Brasil obtê-las diretamente do governo suíço, mas este não as fornece porque o acordo que o Brasil mantém com a Suíça permite apenas trocar informações e realizar atos processuais para investigar e punir pessoas acusadas de crimes como lavagem de dinheiro, corrupção e terrorismo. O tratado não vale para apurar sonegação de impostos ou evasão de divisas.
No caso brasileiro, é pouco provável que o Fisco consiga cobrar impostos sobre os recursos de 2006 e 2007, porque já passou o prazo legal de cinco anos para exigir o tributo. Mesmo assim, é fundamental fiscalizar as pessoas constantes da lista do HSBC para verificar se houve continuidade da prática de evasão tributária.
Paraísos fiscais e sonegação fiscal
A Suíça ganhou o primeiro lugar em 2013 no ranking de segredo bancário internacional, de acordo com o estudo realizado pela Tax Justice Network (rede de justiça tributária) denominado Financial Secrecy Index.O segundo e o terceiro lugar ficaram com Ilhas Cayman e Luxemburgo, respectivamente.
Uma das principais características de um paraíso fiscal é a garantia do sigilo bancário que impede a identificação do cliente, além de reduzida ou nenhuma tributação sobre os rendimentos de estrangeiros. A falta de controle cambial sobre os não residentes e a quase ausência de regulamentação do sistema financeiro também são atributos presentes na maioria dos paraísos fiscais.
Eles também são denominados de offshore (fora do país), em virtude de a maioria das transações dos não residentes ocorrer fora de sua área geográfica. Por isso, quando um estrangeiro abre uma empresa em um paraíso fiscal, ela é chamada offshore.
O objetivo dos paraísos fiscais é atrair capital. Por isso, facilitam a constituição de empresas offshore, trustes, fundações e inclusive bancos, sem muitas exigências. Algumas jurisdições não exigem sequer instalação física da empresa, permitindo-lhe ter apenas uma caixa de correio.
A abertura de empresas em paraísos fiscais é hoje um recurso muito utilizado por pessoas que buscam maior “privacidade” sobre sua fortuna. Para atingir esse objetivo, tornam essas empresas titulares oficiais das contas na Suíça, em seu lugar.
Os ativos financeiros de empresas offshore retornam, muitas vezes, ao país de origem como investimento estrangeiro, para usufruir do benefício da isenção de imposto de renda sobre rendimentos de não residente. É o denominado round tripping (viagem de ida e volta).
Grandes empresas multinacionais também utilizam paraísos fiscais para transferir lucros para suas subsidiárias, por meio de operações de importação e/ou exportação, a valores superfaturados (importação) ou subfaturados (exportação), com o objetivo de reduzir o lucro tributável no Brasil e pagar menos imposto de renda. Esse mecanismo, conhecido como “preço de transferência”, ocorre na maioria dos países e representa um dos principais fatores da erosão da base tributável dos governos mundiais.
Além disso, as multinacionais criam vários tipos de despesas com o objetivo de reduzir o lucro tributável no país que tem uma tributação mais elevada (como o Brasil). São gastos pagos às suas subsidiárias situadas em paraíso fiscal, como serviços de assessoria, royalties e juros por empréstimos.
O modo como o setor bancário abriga dinheiro e esconde segredos tem grande impacto para as sociedades ao redor do mundo. São trilhões de dólares mantidos em paraísos fiscais no exterior, o que permite aos donos dos maiores rendimentos e das maiores fortunas fugir do pagamento de imposto no país em que residem. Uma pesquisa recente, liderada por James Henry, ex-economista chefe da McKinsey, e realizada pela Tax Justice Network, mostra que o estoque de recursos aplicados em paraísos fiscais é estimado entre US$ 21 trilhões e US$ 32 trilhões, entre um terço e metade do PIB mundial. O Brasil participa com cerca de US$ 520 bilhões, um pouco mais de R$ 1 trilhão, cerca de um quarto do nosso PIB [3].
“O setor offshore é uma grande ameaça a nossas instituições democráticas e ao nosso contrato social”, afirmou ao ICIJ o economista francês Thomas Piketty, autor de O Capital no Século XXI. “A opacidade financeira é uma das chaves para a crescente desigualdade global. Ela permite a uma grande parcela dos maiores rendimentos e maiores fortunas pagar taxas ínfimas, enquanto o resto de nós paga altas taxas para financiar serviços públicos (educação, saúde, infraestrutura), que são indispensáveis para o processo de desenvolvimento” (Banking Giant HSBC Sheltered Murky Cash Linked to Dictators and Arms Dealers, ICIJ, 8/2/2015).
O rigoroso sigilo bancário e a baixa ou nenhuma tributação nos paraísos fiscais têm produzido efeitos nocivos sobre as finanças dos demais países. Preocupados com a situação, em 2013 os países do G20 solicitaram à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) um plano de ação para enfrentar os problemas da erosão da base tributável e da transferência de lucros. Em parceria com outros países (incluindo o Brasil), a OCDE vem estudando a questão e propôs um conjunto de quinze ações, conhecido como Projeto sobre Erosão de Base de Cálculo e Deslocamento de Lucros (Beps, na sigla em inglês). Este, contudo, ainda não foi totalmente concluído, devendo ser finalizado até o final de 2015.
Medidas a serem adotadas
Há diversas medidas e propostas que podem ser adotadas. Algumas de médio prazo ainda estão em desenvolvimento, como o Beps; outras, de natureza operacional, podem ser implementadas desde já, porquanto dependem apenas da administração pública brasileira. Existem também propostas mais ambiciosas que dependem de cooperação internacional, mas são perfeitamente factíveis.
Uma das ações já aprovadas no Beps da OCDE/G20 é a instituição do Country-by-Country Reporting (CBCR). Trata-se de um modelo de relatório a ser preenchido pelas empresas multinacionais para prestar informações ao Fisco sobre a alocação de sua renda mundial, atividade econômica e impostos pagos, país por país. O objetivo dessa medida é garantir que os lucros sejam tributados no país em que a riqueza foi gerada, evitando com isso a transferência de lucros para paraísos fiscais.
Uma primeira medida doméstica que poderia ser implementada é a instituição de um controle sobre os registros de importação e respectivos contratos de câmbio. Apesar de haver a obrigação legal de vincular o contrato de câmbio ao registro de importação, não há controle nem previsão de penalidade no caso de descumprimento. Não existe cruzamento entre os dados do contrato de câmbio e os registros no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) para verificar se a importação efetivamente ocorreu.
Essa falta de controle possibilita a evasão de divisas, por meio de contratos de câmbio supostamente firmados para o pagamento de importações. “Os doleiros se valem de uma falha nos sistemas de controle, pois as instituições financeiras e as corretoras de valores não precisam mais pesquisar no Siscomex, ao realizar um contrato de câmbio, se realmente existiu aquela importação que justificaria a realização de um contrato de câmbio”, esclareceu o Ministério Público Federal em uma denúncia da Operação Lava Jato [4].
Outro instrumento seria estender o atual sistema de informação sobre renda e patrimônio para todos os ativos, tanto financeiros quanto imobiliários e mobiliários. Poderia ser instituída desde já uma declaração de informações para o Fisco brasileiro de todos os ativos e passivos detidos por instituições financeiras localizadas em território nacional.
Há ainda outras propostas como as de Thomas Piketty, que defende a criação de um imposto mundial e progressivo sobre o capital, acompanhado de uma grande transparência financeira internacional5. O autor afirma que o imposto mundial sobre o capital é uma utopia, mas a considera uma utopia útil. Ele entende que é perfeitamente possível perseguir essa instituição ideal em etapas e em escala regional ou continental, começando a pô-la em prática em escala continental ou regional.
Para o economista, o imposto sobre o capital deve mirar a transparência democrática e financeira sobre os patrimônios e os ativos detidos pelos indivíduos em escala internacional. “Os benefícios para a democracia seriam consideráveis: é muito difícil haver um debate tranquilo sobre os grandes problemas mundiais enquanto reinar tamanha opacidade sobre a distribuição das riquezas e das fortunas mundiais”, afirma o autor.
Outra proposta defendida por Piketty é tornar obrigatório o registro do título de propriedade e o conjunto dos seus ativos perante as autoridades financeiras mundiais. O imposto sobre o capital seria um cadastro financeiro, assim como é o cadastro de imóveis.
Para o autor, o imposto sobre o capital obriga a especificar e ampliar o conteúdo dos acordos internacionais sobre as transmissões automáticas de informações bancárias. O princípio deve ser simples: cada autoridade fiscal nacional deve receber todas as informações necessárias para lhe permitir calcular a renda e o patrimônio líquido de cada cidadão.
Outra medida avançada e implementada é a lei americana conhecida como Facta. Ela impõe a todos os bancos estrangeiros a obrigação de transmitir ao fisco americano todas as informações sobre suas contas, alocações e rendas detidas e ganhas pelos contribuintes americanos em outros lugares do mundo.
Por fim, e em síntese, é preciso buscar a ampliação dos acordos e tratados internacionais, a troca automática de informações entre os países, maior transparência nas atividades das instituições financeiras e das multinacionais e efetivos controles sobre as operações de comércio exterior e de câmbio. Além disso, são indispensáveis para a otimização do trabalho da administração tributária todas as informações dos ativos financeiros mantidos pelos bancos.
* Clair Hickmann é auditora da Receita Federal do Brasil, integra o Instituto Justiça Fiscal (IJF).
Notas
1. RODRIGUES, Fernando. “Entenda como é a apuração do SwissLeaks e a política editorial sobre o caso”, 12/2/15. (http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2015/02/12/entenda-como-e...)
2. FERNANDES, Daniela. “Saiba como contas secretas permitem sonegação de bilhões na Suíça”. BBC Brasil, 10/2/15 ( http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/02/150210_escandalo_suica_...
3. The price of off-shore revisited http://www.taxjustice.net/cms/upload/pdf/The_Price_of_Offshore_Revisited... 4. http://s.conjur.com.br/dl/denuncia-carlos-alexandre-rocha-lava.pdf
4. http://s.conjur.com.br/dl/denuncia-carlos-alexandre-rocha-lava.pdf
5. PIKETTY, Thomas. O Capital do Século XXI, 1ª ed. Rio de Janeiro. Editora Intrínseca.
PORAltamiro Borges
A série de reportagens recentes sobre o caso SwissLeaks (vazamentos da Suíça) põe em destaque o problema dos paraísos fiscais, que possibilitam a evasão de divisas, a sonegação de tributos e a lavagem de dinheiro. Essas práticas produzem efeitos nocivos sobre as finanças dos demais países e representam uma ameaça às instituições democráticas. Com o objetivo de contribuir para o debate, apresentamos algumas propostas para enfrentar o problema.
Origem do caso
O episódio conhecido como SwissLeaks trata de um grande vazamento sobre contas bancárias secretas, mantidas no HSBC na Suíça durante os anos de 2006 e 2007. De acordo com as reportagens publicadas em diversos países, por meio do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), o banco abrigou cerca de US$ 100 bilhões de 106 mil clientes de 203 países. No caso do Brasil, são 6.606 contas bancárias que atendem a 8.667 clientes e um valor de aproximadamente de US$ 7 bilhões [1].
Os documentos foram vazados por um ex-funcionário do HSBC, Hervé Falciani, que retirou os dados do banco, em meio magnético, e os entregou às autoridades francesas em 2008.
Por que abrir uma conta secreta?
As contas secretas numeradas na Suíça são identificadas somente por um código alfanumérico e o nome dos titulares é conhecido apenas pelo alto escalão do banco. Isso significa que as contas não são completamente secretas ou anônimas; em conformidade com a legislação bancária internacional, a pessoa precisa comprovar sua identidade no ato de abertura da operação.
No caso dos vazamentos do HSBC da Suíça, o ex-funcionário, na função de técnico de informática, teve acesso inclusive aos nomes. Constam da lista empresários, banqueiros, barões da mídia, artistas, esportistas, políticos, doadores de campanha, doleiros, traficantes de armas e diamantes, executivos, empresas offshore com sede em paraísos fiscais, entre outros.
Em princípio, qualquer pessoa pode manter legalmente uma conta no exterior. É necessário, porém, declarar a conta no Imposto de Renda e informar ao Banco Central os valores remetidos para outro país.
Na maior parte dos casos, quem abre uma conta numerada na Suíça quer manter o sigilo porque o dinheiro provém de alguma atividade ilícita, como sonegação de tributos, lavagem de dinheiro, corrupção, tráfico de drogas ou armas e até terrorismo.
É possível que o dinheiro de parte dessas contas tenha origem lícita. No entanto, qual seria o motivo para abrir uma conta secreta?
Ações dos governos e recuperação de impostos e multas
Segundo o ICIJ, autoridades de diversos países investigam supostas evidências de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro envolvendo correntistas.
O Fisco da França, que recebeu as informações vazadas em 2008, passou a investigar todos os franceses citados por possível crime de evasão de divisas e sonegação de impostos. Segundo divulgações da mídia internacional [2] a investigação revelou que a filial suíça do HSBC ajudava clientes ricos a evadir o pagamento de impostos. O governo francês já recuperou cerca de US$ 600 milhões em impostos e multas.
Em 2010, o governo da França passou a compartilhar o acervo vazado do HSBC com outros países que demonstraram interesse. Bélgica, Espanha, Reino Unido e Argentina, entre outros, solicitaram acesso aos dados. A Bélgica já recuperou US$ 490 milhões e a Espanha, US$ 298 milhões.
Após a divulgação do SwissLeaks, um representante do governo brasileiro disse que solicitou ao governo francês o acesso aos dados dos clientes brasileiros.
Para evitar questionamentos de legalidade das informações, o ideal seria o Brasil obtê-las diretamente do governo suíço, mas este não as fornece porque o acordo que o Brasil mantém com a Suíça permite apenas trocar informações e realizar atos processuais para investigar e punir pessoas acusadas de crimes como lavagem de dinheiro, corrupção e terrorismo. O tratado não vale para apurar sonegação de impostos ou evasão de divisas.
No caso brasileiro, é pouco provável que o Fisco consiga cobrar impostos sobre os recursos de 2006 e 2007, porque já passou o prazo legal de cinco anos para exigir o tributo. Mesmo assim, é fundamental fiscalizar as pessoas constantes da lista do HSBC para verificar se houve continuidade da prática de evasão tributária.
Paraísos fiscais e sonegação fiscal
A Suíça ganhou o primeiro lugar em 2013 no ranking de segredo bancário internacional, de acordo com o estudo realizado pela Tax Justice Network (rede de justiça tributária) denominado Financial Secrecy Index.O segundo e o terceiro lugar ficaram com Ilhas Cayman e Luxemburgo, respectivamente.
Uma das principais características de um paraíso fiscal é a garantia do sigilo bancário que impede a identificação do cliente, além de reduzida ou nenhuma tributação sobre os rendimentos de estrangeiros. A falta de controle cambial sobre os não residentes e a quase ausência de regulamentação do sistema financeiro também são atributos presentes na maioria dos paraísos fiscais.
Eles também são denominados de offshore (fora do país), em virtude de a maioria das transações dos não residentes ocorrer fora de sua área geográfica. Por isso, quando um estrangeiro abre uma empresa em um paraíso fiscal, ela é chamada offshore.
O objetivo dos paraísos fiscais é atrair capital. Por isso, facilitam a constituição de empresas offshore, trustes, fundações e inclusive bancos, sem muitas exigências. Algumas jurisdições não exigem sequer instalação física da empresa, permitindo-lhe ter apenas uma caixa de correio.
A abertura de empresas em paraísos fiscais é hoje um recurso muito utilizado por pessoas que buscam maior “privacidade” sobre sua fortuna. Para atingir esse objetivo, tornam essas empresas titulares oficiais das contas na Suíça, em seu lugar.
Os ativos financeiros de empresas offshore retornam, muitas vezes, ao país de origem como investimento estrangeiro, para usufruir do benefício da isenção de imposto de renda sobre rendimentos de não residente. É o denominado round tripping (viagem de ida e volta).
Grandes empresas multinacionais também utilizam paraísos fiscais para transferir lucros para suas subsidiárias, por meio de operações de importação e/ou exportação, a valores superfaturados (importação) ou subfaturados (exportação), com o objetivo de reduzir o lucro tributável no Brasil e pagar menos imposto de renda. Esse mecanismo, conhecido como “preço de transferência”, ocorre na maioria dos países e representa um dos principais fatores da erosão da base tributável dos governos mundiais.
Além disso, as multinacionais criam vários tipos de despesas com o objetivo de reduzir o lucro tributável no país que tem uma tributação mais elevada (como o Brasil). São gastos pagos às suas subsidiárias situadas em paraíso fiscal, como serviços de assessoria, royalties e juros por empréstimos.
O modo como o setor bancário abriga dinheiro e esconde segredos tem grande impacto para as sociedades ao redor do mundo. São trilhões de dólares mantidos em paraísos fiscais no exterior, o que permite aos donos dos maiores rendimentos e das maiores fortunas fugir do pagamento de imposto no país em que residem. Uma pesquisa recente, liderada por James Henry, ex-economista chefe da McKinsey, e realizada pela Tax Justice Network, mostra que o estoque de recursos aplicados em paraísos fiscais é estimado entre US$ 21 trilhões e US$ 32 trilhões, entre um terço e metade do PIB mundial. O Brasil participa com cerca de US$ 520 bilhões, um pouco mais de R$ 1 trilhão, cerca de um quarto do nosso PIB [3].
“O setor offshore é uma grande ameaça a nossas instituições democráticas e ao nosso contrato social”, afirmou ao ICIJ o economista francês Thomas Piketty, autor de O Capital no Século XXI. “A opacidade financeira é uma das chaves para a crescente desigualdade global. Ela permite a uma grande parcela dos maiores rendimentos e maiores fortunas pagar taxas ínfimas, enquanto o resto de nós paga altas taxas para financiar serviços públicos (educação, saúde, infraestrutura), que são indispensáveis para o processo de desenvolvimento” (Banking Giant HSBC Sheltered Murky Cash Linked to Dictators and Arms Dealers, ICIJ, 8/2/2015).
O rigoroso sigilo bancário e a baixa ou nenhuma tributação nos paraísos fiscais têm produzido efeitos nocivos sobre as finanças dos demais países. Preocupados com a situação, em 2013 os países do G20 solicitaram à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) um plano de ação para enfrentar os problemas da erosão da base tributável e da transferência de lucros. Em parceria com outros países (incluindo o Brasil), a OCDE vem estudando a questão e propôs um conjunto de quinze ações, conhecido como Projeto sobre Erosão de Base de Cálculo e Deslocamento de Lucros (Beps, na sigla em inglês). Este, contudo, ainda não foi totalmente concluído, devendo ser finalizado até o final de 2015.
Medidas a serem adotadas
Há diversas medidas e propostas que podem ser adotadas. Algumas de médio prazo ainda estão em desenvolvimento, como o Beps; outras, de natureza operacional, podem ser implementadas desde já, porquanto dependem apenas da administração pública brasileira. Existem também propostas mais ambiciosas que dependem de cooperação internacional, mas são perfeitamente factíveis.
Uma das ações já aprovadas no Beps da OCDE/G20 é a instituição do Country-by-Country Reporting (CBCR). Trata-se de um modelo de relatório a ser preenchido pelas empresas multinacionais para prestar informações ao Fisco sobre a alocação de sua renda mundial, atividade econômica e impostos pagos, país por país. O objetivo dessa medida é garantir que os lucros sejam tributados no país em que a riqueza foi gerada, evitando com isso a transferência de lucros para paraísos fiscais.
Uma primeira medida doméstica que poderia ser implementada é a instituição de um controle sobre os registros de importação e respectivos contratos de câmbio. Apesar de haver a obrigação legal de vincular o contrato de câmbio ao registro de importação, não há controle nem previsão de penalidade no caso de descumprimento. Não existe cruzamento entre os dados do contrato de câmbio e os registros no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) para verificar se a importação efetivamente ocorreu.
Essa falta de controle possibilita a evasão de divisas, por meio de contratos de câmbio supostamente firmados para o pagamento de importações. “Os doleiros se valem de uma falha nos sistemas de controle, pois as instituições financeiras e as corretoras de valores não precisam mais pesquisar no Siscomex, ao realizar um contrato de câmbio, se realmente existiu aquela importação que justificaria a realização de um contrato de câmbio”, esclareceu o Ministério Público Federal em uma denúncia da Operação Lava Jato [4].
Outro instrumento seria estender o atual sistema de informação sobre renda e patrimônio para todos os ativos, tanto financeiros quanto imobiliários e mobiliários. Poderia ser instituída desde já uma declaração de informações para o Fisco brasileiro de todos os ativos e passivos detidos por instituições financeiras localizadas em território nacional.
Há ainda outras propostas como as de Thomas Piketty, que defende a criação de um imposto mundial e progressivo sobre o capital, acompanhado de uma grande transparência financeira internacional5. O autor afirma que o imposto mundial sobre o capital é uma utopia, mas a considera uma utopia útil. Ele entende que é perfeitamente possível perseguir essa instituição ideal em etapas e em escala regional ou continental, começando a pô-la em prática em escala continental ou regional.
Para o economista, o imposto sobre o capital deve mirar a transparência democrática e financeira sobre os patrimônios e os ativos detidos pelos indivíduos em escala internacional. “Os benefícios para a democracia seriam consideráveis: é muito difícil haver um debate tranquilo sobre os grandes problemas mundiais enquanto reinar tamanha opacidade sobre a distribuição das riquezas e das fortunas mundiais”, afirma o autor.
Outra proposta defendida por Piketty é tornar obrigatório o registro do título de propriedade e o conjunto dos seus ativos perante as autoridades financeiras mundiais. O imposto sobre o capital seria um cadastro financeiro, assim como é o cadastro de imóveis.
Para o autor, o imposto sobre o capital obriga a especificar e ampliar o conteúdo dos acordos internacionais sobre as transmissões automáticas de informações bancárias. O princípio deve ser simples: cada autoridade fiscal nacional deve receber todas as informações necessárias para lhe permitir calcular a renda e o patrimônio líquido de cada cidadão.
Outra medida avançada e implementada é a lei americana conhecida como Facta. Ela impõe a todos os bancos estrangeiros a obrigação de transmitir ao fisco americano todas as informações sobre suas contas, alocações e rendas detidas e ganhas pelos contribuintes americanos em outros lugares do mundo.
Por fim, e em síntese, é preciso buscar a ampliação dos acordos e tratados internacionais, a troca automática de informações entre os países, maior transparência nas atividades das instituições financeiras e das multinacionais e efetivos controles sobre as operações de comércio exterior e de câmbio. Além disso, são indispensáveis para a otimização do trabalho da administração tributária todas as informações dos ativos financeiros mantidos pelos bancos.
* Clair Hickmann é auditora da Receita Federal do Brasil, integra o Instituto Justiça Fiscal (IJF).
Notas
1. RODRIGUES, Fernando. “Entenda como é a apuração do SwissLeaks e a política editorial sobre o caso”, 12/2/15. (http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2015/02/12/entenda-como-e...)
2. FERNANDES, Daniela. “Saiba como contas secretas permitem sonegação de bilhões na Suíça”. BBC Brasil, 10/2/15 ( http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/02/150210_escandalo_suica_...
3. The price of off-shore revisited http://www.taxjustice.net/cms/upload/pdf/The_Price_of_Offshore_Revisited... 4. http://s.conjur.com.br/dl/denuncia-carlos-alexandre-rocha-lava.pdf
4. http://s.conjur.com.br/dl/denuncia-carlos-alexandre-rocha-lava.pdf
5. PIKETTY, Thomas. O Capital do Século XXI, 1ª ed. Rio de Janeiro. Editora Intrínseca.
PORAltamiro Borges
sexta-feira, 3 de abril de 2015
o Zelotes “dazelite” (Ou de como as elites roubam o povo e passam a culpa adiante)
Bancos, montadoras e gigante da alimentação são alvo de operação contra propina
Estadão Conteúdo Publicado no UOL
Os bancos Bradesco, Santander, Safra, Pactual e Bank Boston, as montadoras Ford e Mitsubishi, além da gigante da alimentação BR Foods são investigados por suspeita de negociar ou pagar propina para apagar débitos com a Receita Federal no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf).
“Aqui no Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) só os pequenos devedores pagam. Os grandes, não”, resumiu um ex-conselheiro do Carf, com cargo até 2013, numa conversa interceptada com autorização da Justiça, segundo relato dos investigadores. Procuradas pela reportagem, a maioria das empresas informou não ter conhecimento do assunto.
A fórmula para fazer o débito desaparecer era o pagamento de suborno a integrantes do órgão, espécie de “tribunal” da Receita, para que produzissem pareceres favoráveis aos contribuintes nos julgamentos de recursos dos débitos fiscais ou tomassem providências como pedir vistas de processos.
O grupo de comunicação RBS é suspeito de pagar R$ 15 milhões para obter redução de débito fiscal de cerca de R$ 150 milhões. No total, as investigações se concentram sobre débitos da RBS que somam R$ 672 milhões, segundo investigadores.
O grupo Gerdau também é investigado pela suposta tentativa de anular débitos que chegam a R$ 1,2 bilhão.
O banco Safra, que tem dívidas em discussão de R$ 767 milhões, teria sido flagrado negociando o cancelamento dos débitos.
Estão sob suspeita, ainda, processos envolvendo débitos do Bradesco e da Bradesco Seguros no valor de R$ 2,7 bilhões; do Santander (R$ 3,3 bilhões) e do Bank Boston (R$ 106 milhões).
Lê também este outro artigo aqui no Blog
PF desbarata fraude de R$19bi em impostos no órgão que anulou cobrança da Globo
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Interesse por trás do ataque à Petrobras
Por José Sergio Gabrielli de Azevedo, no jornal Le Monde Diplomatique-Brasil:
A Petrobras foi posta em uma encruzilhada histórica, e os desdobramentos da investigação da Justiça e de futuras decisões administrativas podem colocar em xeque não só o legado dos últimos anos, mas também a sobrevivência da companhia como big player do mercado e a política de Estado que projeta um futuro promissor garantido pelo pré-sal. Não se trata de uma previsão catastrofista, e sim de um alerta da real necessidade de depurar toda a onda de ataques à imagem e à reputação da estatal e defender seu papel estratégico para o desenvolvimento econômico do país, o legado construído nos últimos doze anos e a sobrevivência de toda sua cadeia produtiva.
Desde 2003, a gestão da Petrobras levou em consideração que o Estado brasileiro tinha uma política de longo prazo de fortalecer os interesses da União na exploração e produção de petróleo, fomentar o crescimento de vários setores da indústria brasileira e promover o desenvolvimento social. Com a potencialidade de desenvolvimento da produção de petróleo, o Estado brasileiro queria diminuir o risco da doença holandesa de ficar somente dependente dele. Havia a necessidade de fortalecer a cadeia de fornecedores, gerar emprego e renda em outros setores e expandir a tecnologia nacional. Com a descoberta do pré-sal, em 2006, essas possibilidades se potencializaram muito mais.
As diretrizes que guiaram a Petrobras até aqui – levando a resultados expressivos tanto financeiros quanto de know-how em tecnologia – contrariam sensivelmente aqueles que defendem o modelo privatista vigente até fins de 2002, o qual desejava a abertura da exploração de uma riqueza brasileira exclusivamente para mãos estrangeiras.
A Operação Lava Jato revelou que as regras de governança empresarial são insuficientes para detectar comportamentos criminosos. Por mais que, até aqui, se saiba que o esquema de corrupção, embora tenha começado confessadamente nos anos 1990, envolva pessoas em acordos ilícitos que ultrapassam as fronteiras de governança de uma empresa, somente a quebra de sigilo e as benesses de acordos de delação premiada foram capazes de trazer à tona o modus operandi e os valores e percentuais desviados de cada contrato.
A identificação de comportamentos criminosos por parte de alguns dirigentes da companhia vai forçar um maior controle dos processos internos, para fortalecer ocompliance com as regras da boa governança. A direção estratégica da companhia vai precisar, a curto prazo, se dedicar a reconquistar a confiança do mercado financiador de seus títulos, principalmente agora, depois do rebaixamento de seu rating no mercado. Isso significa que os processos decisórios serão mais lentos e cuidadosos, e os objetivos mais gerais de seu plano de investimentos serão submetidos à lógica de curto prazo. A construção de uma cadeia de fornecedores e seus impactos macroeconômicos serão secundarizados em relação à geração de caixa para reduzir seu endividamento, publicar seu balanço e satisfazer seus credores.
Numa segunda onda, não menos importante e ainda mais devastadora, há um risco sistêmico para a economia brasileira em razão da paralisia e inoperância dos principais fornecedores da cadeia produtiva da estatal – em destaque o risco de default das maiores empreiteiras brasileiras – e da contaminação do sistema financeiro, uma vez que a maioria das construtoras operava alavancada por empréstimos. Se a roda parar de girar, o sistema cai. A crise aberta na Petrobras pode ser a versão brasileira dos subprimes norte-americanos de 2008.
E sabemos, de antemão, qual é o discurso da oposição: a culpa pela perda de valor da companhia e os impactos sobre a cadeia produtiva cairão na conta do “projeto de poder do PT”, que se valeu do esquema de extorsão e desvio de dinheiro público para, mais uma vez, financiar a compra de apoio político. Estamos, portanto, diante de um jogo político que, no cenário internacional, mexe no status quo dos grandes players do mercado de petróleo.
Por que a Petrobras está sob ataque
É preciso, portanto, entender por que a Petrobras e o pré-sal são peças-chave nesse xadrez político e econômico. Poucos países têm a situação do Brasil na produção, distribuição e consumo do petróleo. Foi no Brasil a maior descoberta de novos recursos dos últimos anos, com a identificação das gigantescas reservas de petróleo do pré-sal. Os recursos ali identificados representam a principal fonte de novo petróleo convencional do mundo, com condições de produção muito favoráveis, apesar dos desafios tecnológicos – a maior parte deles já superada – de reservatórios especiais em águas profundas, distantes do litoral.
A Petrobras é hoje a vanguarda na exploração em águas profundas, o que fez do pré-sal um novo paradigma mundial. De forma surpreendente para os padrões mundiais, sete anos depois da descoberta, a produção diária já supera os 700 mil barris, quando o mesmo nível de produção requereu muito mais tempo depois da descoberta no Mar do Norte, no Golfo do México ou na costa leste da África. A Petrobras, praticamente como operadora única, foi um sucesso de realização, introdução de sistemas produtivos e produtividade. O pré-sal é viável com preços de equilíbrio inferiores aos atuais preços do petróleo, que caíram para um terço de seu valor em junho de 2014. Portanto, cai por terra o argumento muitas vezes divulgado pela imprensa de que o pré-sal é uma promessa para o futuro. Sua exploração é uma realidade – e muito bem-sucedida.
Poucos países têm a situação brasileira no refino e no consumo de combustíveis. É um mercado de derivados que cresce a taxas extraordinariamente altas em comparação com os mercados europeus, norte-americano e japonês, com uma presença significativa de etanol e biodiesel no fornecimento final dos combustíveis e com uma malha logística, em um país continental, que pode alcançar todo o território nacional. Além de ter uma taxa de crescimento bastante alta, é, em termos absolutos, um dos maiores mercados do mundo, o que garante, em âmbito nacional, a combinação de oferta de fontes de petróleo cru economicamente viáveis, em volume considerável, com parque de refino instalado e mercado consumidor ávido para utilizar os derivados produzidos.
Esse cenário só foi possível porque o Conselho de Administração da Petrobras soube se guiar com precisão nos últimos doze anos, orientando os investimentos onde eram de fato necessários – e sem perder de vista a política de Estado de fortalecimento interno da economia e desenvolvimento social.
Poucos países têm a situação brasileira de um sistema de geração de eletricidade que combina a fonte hidrelétrica com um parque termelétrico fortemente lastreado na utilização de gás natural, ao mesmo tempo que cresce a taxas expressivas a geração eólica. Conta com uma rede de gasodutos que liga a costa brasileira de norte a sul do país e é capaz de, conectada com a Bolívia, ter um fornecimento de gás que consolida a contribuição da produção brasileira, a importação via gasoduto da Bolívia e a importação de GNL com três terminais de regaseificação instalados.
Poucos países têm a situação brasileira de ter uma empresa como a Petrobras, que conta com o melhor conhecimento e experiência do mundo na produção em águas profundas, fato reconhecido pela terceira vez, dando à empresa este ano o Distinguished Award,da prestigiada Offshore Technology Conference (OTC), que ocorre todos os anos no Texas, Estados Unidos. A Petrobras tem um dos melhores corpos técnicos do mundo, tem instalada uma das maiores frotas mundiais de sistemas flutuantes de produção, com barcos de apoio e sondas de perfuração, além de operar os sistemas submersos e a logística de escoamento da produção de petróleo e gás de forma segura, eficiente e rentável.
Além de sua capacidade própria, a história da Petrobras a credencia a ser um parceiro desejado pelas grandes companhias de petróleo, com quem ela mantém relações produtivas de parceria. Ser a operadora única possibilita a melhor utilização da infraestrutura já instalada, a melhor eficiência na mobilização de recursos adequados para a solução dos desafios e a possibilidade de atrair os melhores agentes do mercado. Possibilita também obter vantagens da escala de compras e da definição de estratégias de longo prazo que necessitem de expansão da capacidade de produção do próprio setor de fornecimento de equipamentos especiais e dedicados, como sondas de perfuração de águas profundas, equipamentos submersos e sistemas de complementação dos sistemas de produção. Possibilita ainda a apropriação nacional dos desenvolvimentos tecnológicos que advêm da experiência concreta de fazer a produção funcionar.
A descoberta de grandes reservas de petróleo pode ser um bônus se permitir a criação de mais riqueza e tornar possível que o país supere suas limitações de crescimento, distribuição de renda e justiça social. Mas a mesma descoberta também pode ser uma maldição se não permitir que outros setores da economia cresçam, levando ao que se conhece como doença holandesa: um setor passa a ser hipertrofiado como gerador de renda, inibindo os outros. Como a fonte da renda é um recurso esgotável, seu fim condena todos à miséria.
É contra esse risco que a política de conteúdo nacional, utilizando a escala das compras para os sistemas de produção de petróleo no país, de forma a promover a expansão da capacidade produtiva das empresas localizadas no Brasil, possibilita a formação de uma forte cadeia de suprimento para o setor, que irradia a criação de emprego e renda, além da atividade de produção de petróleo e gás.
Esse modelo sempre teve opositores – o que vem desde os tempos de Getúlio Vargas. Inicialmente eles eram contra a própria existência da Petrobras e se opuseram à sua criação, defendendo que era melhor abrir o país para as operadoras internacionais. Depois, com a quebra do monopólio nos anos 1990, adotaram o modelo dos leilões de concessão, que, dado o risco exploratório alto, gerava receitas para o Estado baseadas nas expectativas que as empresas tinham sobre os ganhos futuros das concessões e balizavam os bônus, que elas ofereciam ao Estado pelo direito de produzir durante mais de 25 anos. A repartição de ganhos futuros estava predeterminada.
Com o pré-sal tudo se modificou. O risco exploratório de buscar e não encontrar petróleo era mínimo; portanto, basear o ganho futuro do Estado nessa avaliação riscada das empresas não era o modelo adequado. O governo brasileiro mudou o marco regulatório e instaurou o contrato de partilha de produção, em que o Estado partilha os ganhos futuros que surgirem da exploração, uma vez que os riscos subsistentes do pré-sal se relacionam com o desenvolvimento da produção, e não com a exploração.
Os opositores, claro, não querem isso. Querem mais garantias para as empresas e menos possibilidades de o Estado capturar parte dos excedentes de renda, que poderão advir da continuidade da produção da imensa riqueza descoberta. Querem retornar aos leilões de concessão, nos quais os ganhos do Estado dependem das expectativas das empresas de qual será a receita futura do petróleo a ser produzido. Esse é um ponto-chave para entender por que a Petrobras passou a ser alvo de tamanha artilharia. Na prática, o marco regulatório e o modelo de partilha dão solidez à política de Estado como diretriz da gestão da Petrobras e dos recursos do pré-sal. O ataque à reputação da companhia – e seu consequente efeito para o rating da estatal junto às agências de classificação de risco – tem o objetivo de “quebrar a espinha da Petrobras” e, assim, inviabilizar o modelo de partilha imposto pelo marco regulatório.
Outro grave desdobramento que se avizinha é comprometer os ganhos sociais que estão diretamente ligados à política vigente. Em 2010, o governo brasileiro foi sábio em criar um fundo para concentrar os ganhos advindos da exploração e produção do pré-sal, definindo que seus rendimentos deveriam se destinar a investimentos que transformassem o futuro do país: educação, ciência e tecnologia e meio ambiente. Os opositores também não querem isso e defendem apenas a manutenção dos royalties e da participação especial, contribuição adicional que as empresas petroleiras pagam nos leilões de concessão, para campos extremamente produtivos.
São essas conquistas que estão sob ameaça com a atual sanha “denuncista” da mídia nacional, que já começa a contaminar a mídia internacional. Não importam os fatos, mas as versões e as ilações sobre os fatos. Os únicos testemunhos que valem são dos acusadores. O ônus da prova, que deveria ser de quem acusa, passou a ser exigido de quem é acusado. Ninguém seria em princípio inocente, como define a Constituição. Se for dirigente da Petrobras e, principalmente, se for do PT, você é imediatamente condenado pela mídia, sem direito a defesa nem julgamento. É um linchamento público gigantesco. A voz dos delatores é considerada a verdade absoluta, sem provas e seletivamente divulgada.
Não se faz aqui, evidentemente, a defesa dos atos ilícitos que foram confessados. Muito pelo contrário: devem ser investigados, e os culpados, punidos. Sempre respeitando, porém, as regras de um Estado democrático de direito e, sobretudo, sem o viés político que se tem dado ao caso. Colocar todos os contratos da Petrobras e o trabalho de mais de 80 mil funcionários em suspeição é um atentado político contra a companhia e, por tabela, a toda a sociedade brasileira, que é, de fato, dona das riquezas do pré-sal.
Deve-se ter frieza para analisar os fatos sem a influência política de quem tem interesses em enfraquecer a Petrobras ou ainda em apagar o legado que se construiu nos últimos doze anos. O que se sabe até aqui é que os atos ilícitos confessados foram praticados fora da Petrobras, mas com a conivência de alguns poucos funcionários. Atos que seriam praticamente impossíveis de serem detectados por meio das regras rígidas de governança corporativa sempre adotadas pela Petrobras. Outras grandes empresas do mundo, tanto na área de petróleo quanto em outros setores da economia, viveram casos parecidos recentemente, e, em momento algum, colocaram-se em xeque suas operações. A holandesa SBM, fornecedora da Petrobras, é um exemplo. A Siemens e a Alston, envolvidas no escândalo do trensalão tucano em São Paulo, também.
Os supostos pagamentos ilícitos em contratos da Petrobras não podem colocar em suspeição a necessidade e a correção estratégica da companhia em executar cada uma das obras em questão. Todas foram decididas, corretamente, pelo Conselho de Administração da companhia, espelhando seu planejamento estratégico.
A construção das refinarias de Abreu e Lima e do Comperj, ou ainda a reforma da refinaria do Paraná (Repar), hoje demonizadas pela imprensa, são de vital importância para que o Brasil não sofra a longo prazo com o “apagão do refino”. São obras estratégicas para atender ao crescente mercado doméstico de derivados de petróleo, como a gasolina e o diesel. O país não construía uma refinaria desde 1980, e a demanda crescente, sobretudo após 2005, impôs a urgência de ampliação do parque de refino – mesmo se tratando de um investimento caro e demorado e com baixos índices de rentabilidade para os acionistas.
A construção de plataformas e de sondas de perfuração passa pela mesma lógica: sem esses investimentos, a Petrobras não teria condições de, como já assinalado, retirar mais de 700 mil barris por dia das reservas do pré-sal.
Os números da Petrobras são superlativos e espelham sua grandiosidade e papel estratégico para o país. Em fins de 2002, a companhia, que vinha sendo preparada para ser vendida, valia cerca de US$ 15 bilhões em valor de mercado. Durante o governo Fernando Henrique, a empresa registrou lucro líquido médio de R$ 4,2 bilhões por ano. Nos governos Lula e Dilma, a média anual passou para R$ 25,6 bilhões. O lucro anual da Petrobras seria suficiente, por exemplo, para custear o investimento de um ano do programa Bolsa Família. Nos últimos doze anos, o lucro líquido acumulado supera R$ 300 bilhões.
Os resultados financeiros refletem o trabalho do dia a dia. A produção de petróleo da companhia cresceu 50% de 2002 a 2014, sempre acima da média mundial. Apenas no ano passado, cresceu cerca de 7,5%, graças aos campos do pré-sal. A Petrobras é a única petrolífera que registrou crescimento de produção nos últimos anos em comparação com as gigantes do mercado, como Shell, Exxon, Chevron e BP, que estão sofrendo com a crise financeira internacional.
O número de plataformas da empresa mais que dobrou de 2002 até hoje: eram 36e agora são 82, resultado do forte investimento feito na última década. A Petrobras, que no passado investia US$ 2 bilhõespor ano, passou a investir mais de US$ 3,5 bilhõespor mês.
Essa é a empresa real – com números reais – que querem esconder valendo-se das denúncias que surgiram com a Operação Lava Jato, o que gerou o clima de forte especulação que fez a companhia perder tanto valor de mercado em tão pouco tempo. A Petrobras é uma empresa sólida, mas a campanha em curso – em discurso uníssono na imprensa – visa enfraquecê-la. Tentam reverter as mudanças do marco regulatório do pré-sal brasileiro, a que se adiciona o papel geopolítico de uma petroleira brasileira enfraquecida, com uma cadeia de fornecedores, em formação, destroçada e sem condições de continuar competindo para formar uma indústria com conteúdo nacional que gere emprego e renda no país.
O contexto internacional
Também não podemos perder de vista o contexto internacional do mercado de petróleo e o papel estratégico da Arábia Saudita. De 1973, com a crise da guerra árabes-Israel, até 2013, o mercado vinha atuando com a Arábia Saudita sendo o país que regulava a produção adicional sobre a demanda, de forma a impedir quedas acentuadas de preços ou seu aumento demasiado, via ajuste de sua produção nacional. A Arábia Saudita tem um custo de extração do barril do petróleo relativamente baixo em relação aos preços de venda internacional e, portanto, poderia suportar ajustes de preços maiores do que produtores com custos mais elevados.
A Opep, que reunia os países exportadores de petróleo, combinava essa dinâmica e internamente ajustava a produção excedente. Nos últimos anos, em especial a partir de 2008, esse esquema começou a ser questionado.
A produção adicional proveniente dos Estados Unidos, com a expansão das técnicas de fracionamento dos reservatórios no shale gase tight oil e a consequente disponibilidade, por meio da produção associada de condensados equivalentes a óleo leve, tornou esse país o maior mercado consumidor do mundo, praticamente autossuficiente de petróleo leve, ainda que continue a importar petróleo pesado.
Por outro lado, a oferta futura de petróleo não convencional – dos Estados Unidos e das areias betuminosas do Canadá – e do ultrapesado da Venezuela ameaçava o equilíbrio tradicional, em que a produção da Opep era chave. Junto com as perspectivas de crescimento do pré-sal brasileiro, a geopolítica do petróleo passou a considerar as mudanças de papéis de seus atores.
A Arábia Saudita se recusa a baixar sua produção para ajustar os preços, esperando que a queda nos valores tire do mercado – como já começa a acontecer – os produtores norte-americanos de óleo não convencional, colocando o preço do petróleo em níveis ameaçadores para a continuidade de alguns projetos de produção futura de não convencionais. Essa situação ainda não chegou a ameaçar o pré-sal brasileiro, mas já começa a afetar as economias do Irã, da Venezuela e da Rússia, tradicionais adversários dos Estados Unidos na política internacional.
A continuidade dos preços baixos, no entanto, associada aos impactos no mercado financeiro da campanha contra a Petrobras, tentando generalizar comportamentos individuais criminosos com o comportamento da corporação, podem tornar seu papel-chave no modelo de produção desenhado impossível de ser executado.
Essa situação fica ainda mais perigosa se as empresas que estão começando a se preparar para expandir a capacidade de produção da cadeia de suprimento do setor se inviabilizarem.
Isso é o que está em jogo com essa campanha. Os opositores são os mesmos que foram contrários à própria existência da Petrobras, desde seu início. O viés político que se vê em alta no ataque à companhia é infinitamente mais perverso para o futuro do país se comparado aos atos ilícitos até aqui descobertos. É dever cívico alertar e deixar claro a quem interessa que há uma Petrobras fragilizada em meio a tantas denúncias. É o futuro do Brasil que está em jogo.
Por Altamiro Borges
A Petrobras foi posta em uma encruzilhada histórica, e os desdobramentos da investigação da Justiça e de futuras decisões administrativas podem colocar em xeque não só o legado dos últimos anos, mas também a sobrevivência da companhia como big player do mercado e a política de Estado que projeta um futuro promissor garantido pelo pré-sal. Não se trata de uma previsão catastrofista, e sim de um alerta da real necessidade de depurar toda a onda de ataques à imagem e à reputação da estatal e defender seu papel estratégico para o desenvolvimento econômico do país, o legado construído nos últimos doze anos e a sobrevivência de toda sua cadeia produtiva.
Desde 2003, a gestão da Petrobras levou em consideração que o Estado brasileiro tinha uma política de longo prazo de fortalecer os interesses da União na exploração e produção de petróleo, fomentar o crescimento de vários setores da indústria brasileira e promover o desenvolvimento social. Com a potencialidade de desenvolvimento da produção de petróleo, o Estado brasileiro queria diminuir o risco da doença holandesa de ficar somente dependente dele. Havia a necessidade de fortalecer a cadeia de fornecedores, gerar emprego e renda em outros setores e expandir a tecnologia nacional. Com a descoberta do pré-sal, em 2006, essas possibilidades se potencializaram muito mais.
As diretrizes que guiaram a Petrobras até aqui – levando a resultados expressivos tanto financeiros quanto de know-how em tecnologia – contrariam sensivelmente aqueles que defendem o modelo privatista vigente até fins de 2002, o qual desejava a abertura da exploração de uma riqueza brasileira exclusivamente para mãos estrangeiras.
A Operação Lava Jato revelou que as regras de governança empresarial são insuficientes para detectar comportamentos criminosos. Por mais que, até aqui, se saiba que o esquema de corrupção, embora tenha começado confessadamente nos anos 1990, envolva pessoas em acordos ilícitos que ultrapassam as fronteiras de governança de uma empresa, somente a quebra de sigilo e as benesses de acordos de delação premiada foram capazes de trazer à tona o modus operandi e os valores e percentuais desviados de cada contrato.
A identificação de comportamentos criminosos por parte de alguns dirigentes da companhia vai forçar um maior controle dos processos internos, para fortalecer ocompliance com as regras da boa governança. A direção estratégica da companhia vai precisar, a curto prazo, se dedicar a reconquistar a confiança do mercado financiador de seus títulos, principalmente agora, depois do rebaixamento de seu rating no mercado. Isso significa que os processos decisórios serão mais lentos e cuidadosos, e os objetivos mais gerais de seu plano de investimentos serão submetidos à lógica de curto prazo. A construção de uma cadeia de fornecedores e seus impactos macroeconômicos serão secundarizados em relação à geração de caixa para reduzir seu endividamento, publicar seu balanço e satisfazer seus credores.
Numa segunda onda, não menos importante e ainda mais devastadora, há um risco sistêmico para a economia brasileira em razão da paralisia e inoperância dos principais fornecedores da cadeia produtiva da estatal – em destaque o risco de default das maiores empreiteiras brasileiras – e da contaminação do sistema financeiro, uma vez que a maioria das construtoras operava alavancada por empréstimos. Se a roda parar de girar, o sistema cai. A crise aberta na Petrobras pode ser a versão brasileira dos subprimes norte-americanos de 2008.
E sabemos, de antemão, qual é o discurso da oposição: a culpa pela perda de valor da companhia e os impactos sobre a cadeia produtiva cairão na conta do “projeto de poder do PT”, que se valeu do esquema de extorsão e desvio de dinheiro público para, mais uma vez, financiar a compra de apoio político. Estamos, portanto, diante de um jogo político que, no cenário internacional, mexe no status quo dos grandes players do mercado de petróleo.
Por que a Petrobras está sob ataque
É preciso, portanto, entender por que a Petrobras e o pré-sal são peças-chave nesse xadrez político e econômico. Poucos países têm a situação do Brasil na produção, distribuição e consumo do petróleo. Foi no Brasil a maior descoberta de novos recursos dos últimos anos, com a identificação das gigantescas reservas de petróleo do pré-sal. Os recursos ali identificados representam a principal fonte de novo petróleo convencional do mundo, com condições de produção muito favoráveis, apesar dos desafios tecnológicos – a maior parte deles já superada – de reservatórios especiais em águas profundas, distantes do litoral.
A Petrobras é hoje a vanguarda na exploração em águas profundas, o que fez do pré-sal um novo paradigma mundial. De forma surpreendente para os padrões mundiais, sete anos depois da descoberta, a produção diária já supera os 700 mil barris, quando o mesmo nível de produção requereu muito mais tempo depois da descoberta no Mar do Norte, no Golfo do México ou na costa leste da África. A Petrobras, praticamente como operadora única, foi um sucesso de realização, introdução de sistemas produtivos e produtividade. O pré-sal é viável com preços de equilíbrio inferiores aos atuais preços do petróleo, que caíram para um terço de seu valor em junho de 2014. Portanto, cai por terra o argumento muitas vezes divulgado pela imprensa de que o pré-sal é uma promessa para o futuro. Sua exploração é uma realidade – e muito bem-sucedida.
Poucos países têm a situação brasileira no refino e no consumo de combustíveis. É um mercado de derivados que cresce a taxas extraordinariamente altas em comparação com os mercados europeus, norte-americano e japonês, com uma presença significativa de etanol e biodiesel no fornecimento final dos combustíveis e com uma malha logística, em um país continental, que pode alcançar todo o território nacional. Além de ter uma taxa de crescimento bastante alta, é, em termos absolutos, um dos maiores mercados do mundo, o que garante, em âmbito nacional, a combinação de oferta de fontes de petróleo cru economicamente viáveis, em volume considerável, com parque de refino instalado e mercado consumidor ávido para utilizar os derivados produzidos.
Esse cenário só foi possível porque o Conselho de Administração da Petrobras soube se guiar com precisão nos últimos doze anos, orientando os investimentos onde eram de fato necessários – e sem perder de vista a política de Estado de fortalecimento interno da economia e desenvolvimento social.
Poucos países têm a situação brasileira de um sistema de geração de eletricidade que combina a fonte hidrelétrica com um parque termelétrico fortemente lastreado na utilização de gás natural, ao mesmo tempo que cresce a taxas expressivas a geração eólica. Conta com uma rede de gasodutos que liga a costa brasileira de norte a sul do país e é capaz de, conectada com a Bolívia, ter um fornecimento de gás que consolida a contribuição da produção brasileira, a importação via gasoduto da Bolívia e a importação de GNL com três terminais de regaseificação instalados.
Poucos países têm a situação brasileira de ter uma empresa como a Petrobras, que conta com o melhor conhecimento e experiência do mundo na produção em águas profundas, fato reconhecido pela terceira vez, dando à empresa este ano o Distinguished Award,da prestigiada Offshore Technology Conference (OTC), que ocorre todos os anos no Texas, Estados Unidos. A Petrobras tem um dos melhores corpos técnicos do mundo, tem instalada uma das maiores frotas mundiais de sistemas flutuantes de produção, com barcos de apoio e sondas de perfuração, além de operar os sistemas submersos e a logística de escoamento da produção de petróleo e gás de forma segura, eficiente e rentável.
Além de sua capacidade própria, a história da Petrobras a credencia a ser um parceiro desejado pelas grandes companhias de petróleo, com quem ela mantém relações produtivas de parceria. Ser a operadora única possibilita a melhor utilização da infraestrutura já instalada, a melhor eficiência na mobilização de recursos adequados para a solução dos desafios e a possibilidade de atrair os melhores agentes do mercado. Possibilita também obter vantagens da escala de compras e da definição de estratégias de longo prazo que necessitem de expansão da capacidade de produção do próprio setor de fornecimento de equipamentos especiais e dedicados, como sondas de perfuração de águas profundas, equipamentos submersos e sistemas de complementação dos sistemas de produção. Possibilita ainda a apropriação nacional dos desenvolvimentos tecnológicos que advêm da experiência concreta de fazer a produção funcionar.
A descoberta de grandes reservas de petróleo pode ser um bônus se permitir a criação de mais riqueza e tornar possível que o país supere suas limitações de crescimento, distribuição de renda e justiça social. Mas a mesma descoberta também pode ser uma maldição se não permitir que outros setores da economia cresçam, levando ao que se conhece como doença holandesa: um setor passa a ser hipertrofiado como gerador de renda, inibindo os outros. Como a fonte da renda é um recurso esgotável, seu fim condena todos à miséria.
É contra esse risco que a política de conteúdo nacional, utilizando a escala das compras para os sistemas de produção de petróleo no país, de forma a promover a expansão da capacidade produtiva das empresas localizadas no Brasil, possibilita a formação de uma forte cadeia de suprimento para o setor, que irradia a criação de emprego e renda, além da atividade de produção de petróleo e gás.
Esse modelo sempre teve opositores – o que vem desde os tempos de Getúlio Vargas. Inicialmente eles eram contra a própria existência da Petrobras e se opuseram à sua criação, defendendo que era melhor abrir o país para as operadoras internacionais. Depois, com a quebra do monopólio nos anos 1990, adotaram o modelo dos leilões de concessão, que, dado o risco exploratório alto, gerava receitas para o Estado baseadas nas expectativas que as empresas tinham sobre os ganhos futuros das concessões e balizavam os bônus, que elas ofereciam ao Estado pelo direito de produzir durante mais de 25 anos. A repartição de ganhos futuros estava predeterminada.
Com o pré-sal tudo se modificou. O risco exploratório de buscar e não encontrar petróleo era mínimo; portanto, basear o ganho futuro do Estado nessa avaliação riscada das empresas não era o modelo adequado. O governo brasileiro mudou o marco regulatório e instaurou o contrato de partilha de produção, em que o Estado partilha os ganhos futuros que surgirem da exploração, uma vez que os riscos subsistentes do pré-sal se relacionam com o desenvolvimento da produção, e não com a exploração.
Os opositores, claro, não querem isso. Querem mais garantias para as empresas e menos possibilidades de o Estado capturar parte dos excedentes de renda, que poderão advir da continuidade da produção da imensa riqueza descoberta. Querem retornar aos leilões de concessão, nos quais os ganhos do Estado dependem das expectativas das empresas de qual será a receita futura do petróleo a ser produzido. Esse é um ponto-chave para entender por que a Petrobras passou a ser alvo de tamanha artilharia. Na prática, o marco regulatório e o modelo de partilha dão solidez à política de Estado como diretriz da gestão da Petrobras e dos recursos do pré-sal. O ataque à reputação da companhia – e seu consequente efeito para o rating da estatal junto às agências de classificação de risco – tem o objetivo de “quebrar a espinha da Petrobras” e, assim, inviabilizar o modelo de partilha imposto pelo marco regulatório.
Outro grave desdobramento que se avizinha é comprometer os ganhos sociais que estão diretamente ligados à política vigente. Em 2010, o governo brasileiro foi sábio em criar um fundo para concentrar os ganhos advindos da exploração e produção do pré-sal, definindo que seus rendimentos deveriam se destinar a investimentos que transformassem o futuro do país: educação, ciência e tecnologia e meio ambiente. Os opositores também não querem isso e defendem apenas a manutenção dos royalties e da participação especial, contribuição adicional que as empresas petroleiras pagam nos leilões de concessão, para campos extremamente produtivos.
São essas conquistas que estão sob ameaça com a atual sanha “denuncista” da mídia nacional, que já começa a contaminar a mídia internacional. Não importam os fatos, mas as versões e as ilações sobre os fatos. Os únicos testemunhos que valem são dos acusadores. O ônus da prova, que deveria ser de quem acusa, passou a ser exigido de quem é acusado. Ninguém seria em princípio inocente, como define a Constituição. Se for dirigente da Petrobras e, principalmente, se for do PT, você é imediatamente condenado pela mídia, sem direito a defesa nem julgamento. É um linchamento público gigantesco. A voz dos delatores é considerada a verdade absoluta, sem provas e seletivamente divulgada.
Não se faz aqui, evidentemente, a defesa dos atos ilícitos que foram confessados. Muito pelo contrário: devem ser investigados, e os culpados, punidos. Sempre respeitando, porém, as regras de um Estado democrático de direito e, sobretudo, sem o viés político que se tem dado ao caso. Colocar todos os contratos da Petrobras e o trabalho de mais de 80 mil funcionários em suspeição é um atentado político contra a companhia e, por tabela, a toda a sociedade brasileira, que é, de fato, dona das riquezas do pré-sal.
Deve-se ter frieza para analisar os fatos sem a influência política de quem tem interesses em enfraquecer a Petrobras ou ainda em apagar o legado que se construiu nos últimos doze anos. O que se sabe até aqui é que os atos ilícitos confessados foram praticados fora da Petrobras, mas com a conivência de alguns poucos funcionários. Atos que seriam praticamente impossíveis de serem detectados por meio das regras rígidas de governança corporativa sempre adotadas pela Petrobras. Outras grandes empresas do mundo, tanto na área de petróleo quanto em outros setores da economia, viveram casos parecidos recentemente, e, em momento algum, colocaram-se em xeque suas operações. A holandesa SBM, fornecedora da Petrobras, é um exemplo. A Siemens e a Alston, envolvidas no escândalo do trensalão tucano em São Paulo, também.
Os supostos pagamentos ilícitos em contratos da Petrobras não podem colocar em suspeição a necessidade e a correção estratégica da companhia em executar cada uma das obras em questão. Todas foram decididas, corretamente, pelo Conselho de Administração da companhia, espelhando seu planejamento estratégico.
A construção das refinarias de Abreu e Lima e do Comperj, ou ainda a reforma da refinaria do Paraná (Repar), hoje demonizadas pela imprensa, são de vital importância para que o Brasil não sofra a longo prazo com o “apagão do refino”. São obras estratégicas para atender ao crescente mercado doméstico de derivados de petróleo, como a gasolina e o diesel. O país não construía uma refinaria desde 1980, e a demanda crescente, sobretudo após 2005, impôs a urgência de ampliação do parque de refino – mesmo se tratando de um investimento caro e demorado e com baixos índices de rentabilidade para os acionistas.
A construção de plataformas e de sondas de perfuração passa pela mesma lógica: sem esses investimentos, a Petrobras não teria condições de, como já assinalado, retirar mais de 700 mil barris por dia das reservas do pré-sal.
Os números da Petrobras são superlativos e espelham sua grandiosidade e papel estratégico para o país. Em fins de 2002, a companhia, que vinha sendo preparada para ser vendida, valia cerca de US$ 15 bilhões em valor de mercado. Durante o governo Fernando Henrique, a empresa registrou lucro líquido médio de R$ 4,2 bilhões por ano. Nos governos Lula e Dilma, a média anual passou para R$ 25,6 bilhões. O lucro anual da Petrobras seria suficiente, por exemplo, para custear o investimento de um ano do programa Bolsa Família. Nos últimos doze anos, o lucro líquido acumulado supera R$ 300 bilhões.
Os resultados financeiros refletem o trabalho do dia a dia. A produção de petróleo da companhia cresceu 50% de 2002 a 2014, sempre acima da média mundial. Apenas no ano passado, cresceu cerca de 7,5%, graças aos campos do pré-sal. A Petrobras é a única petrolífera que registrou crescimento de produção nos últimos anos em comparação com as gigantes do mercado, como Shell, Exxon, Chevron e BP, que estão sofrendo com a crise financeira internacional.
O número de plataformas da empresa mais que dobrou de 2002 até hoje: eram 36e agora são 82, resultado do forte investimento feito na última década. A Petrobras, que no passado investia US$ 2 bilhõespor ano, passou a investir mais de US$ 3,5 bilhõespor mês.
Essa é a empresa real – com números reais – que querem esconder valendo-se das denúncias que surgiram com a Operação Lava Jato, o que gerou o clima de forte especulação que fez a companhia perder tanto valor de mercado em tão pouco tempo. A Petrobras é uma empresa sólida, mas a campanha em curso – em discurso uníssono na imprensa – visa enfraquecê-la. Tentam reverter as mudanças do marco regulatório do pré-sal brasileiro, a que se adiciona o papel geopolítico de uma petroleira brasileira enfraquecida, com uma cadeia de fornecedores, em formação, destroçada e sem condições de continuar competindo para formar uma indústria com conteúdo nacional que gere emprego e renda no país.
O contexto internacional
Também não podemos perder de vista o contexto internacional do mercado de petróleo e o papel estratégico da Arábia Saudita. De 1973, com a crise da guerra árabes-Israel, até 2013, o mercado vinha atuando com a Arábia Saudita sendo o país que regulava a produção adicional sobre a demanda, de forma a impedir quedas acentuadas de preços ou seu aumento demasiado, via ajuste de sua produção nacional. A Arábia Saudita tem um custo de extração do barril do petróleo relativamente baixo em relação aos preços de venda internacional e, portanto, poderia suportar ajustes de preços maiores do que produtores com custos mais elevados.
A Opep, que reunia os países exportadores de petróleo, combinava essa dinâmica e internamente ajustava a produção excedente. Nos últimos anos, em especial a partir de 2008, esse esquema começou a ser questionado.
A produção adicional proveniente dos Estados Unidos, com a expansão das técnicas de fracionamento dos reservatórios no shale gase tight oil e a consequente disponibilidade, por meio da produção associada de condensados equivalentes a óleo leve, tornou esse país o maior mercado consumidor do mundo, praticamente autossuficiente de petróleo leve, ainda que continue a importar petróleo pesado.
Por outro lado, a oferta futura de petróleo não convencional – dos Estados Unidos e das areias betuminosas do Canadá – e do ultrapesado da Venezuela ameaçava o equilíbrio tradicional, em que a produção da Opep era chave. Junto com as perspectivas de crescimento do pré-sal brasileiro, a geopolítica do petróleo passou a considerar as mudanças de papéis de seus atores.
A Arábia Saudita se recusa a baixar sua produção para ajustar os preços, esperando que a queda nos valores tire do mercado – como já começa a acontecer – os produtores norte-americanos de óleo não convencional, colocando o preço do petróleo em níveis ameaçadores para a continuidade de alguns projetos de produção futura de não convencionais. Essa situação ainda não chegou a ameaçar o pré-sal brasileiro, mas já começa a afetar as economias do Irã, da Venezuela e da Rússia, tradicionais adversários dos Estados Unidos na política internacional.
A continuidade dos preços baixos, no entanto, associada aos impactos no mercado financeiro da campanha contra a Petrobras, tentando generalizar comportamentos individuais criminosos com o comportamento da corporação, podem tornar seu papel-chave no modelo de produção desenhado impossível de ser executado.
Essa situação fica ainda mais perigosa se as empresas que estão começando a se preparar para expandir a capacidade de produção da cadeia de suprimento do setor se inviabilizarem.
Isso é o que está em jogo com essa campanha. Os opositores são os mesmos que foram contrários à própria existência da Petrobras, desde seu início. O viés político que se vê em alta no ataque à companhia é infinitamente mais perverso para o futuro do país se comparado aos atos ilícitos até aqui descobertos. É dever cívico alertar e deixar claro a quem interessa que há uma Petrobras fragilizada em meio a tantas denúncias. É o futuro do Brasil que está em jogo.
Por Altamiro Borges
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