quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

“Se ficarmos parados seremos engolidos”, afirma cacique Kaingang

Por Julio Carignano,

De Nova Laranjeiras

Debate no interior do Paraná criticou atual cenário de ameaças aos direitos dos povos tradicionais e apresentou a comunicação popular como ferramenta de apoio à luta indígena na região.


Créditos: Julio Carignano
A questão indígena e atual conjuntura de ataques a direitos das comunidades, o Levante Zapatista no México, a autodeterminação destes povos e a utilização de ferramentas de comunicação popular em apoio à luta dos povos originários pautaram um debate no último sábado (13/2) na Terra Indígena Rio das Cobras, uma das maiores reservas do sul do país, localizada nos municípios de Nova Laranjeiras e Espigão Alto do Iguaçu, Centro Sul do Paraná.

A roda de conversa reuniu lideranças e juventude da Terra Indígena, militantes de movimentos sociais, comunicadores populares e professores e estudantes da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e foi organizada pelo Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC), coletivos da Rádio Gralha (PR) e Rádio Xibé (AM) e o Coletivo Estudantil Indígena de Rio das Cobras.  A atividade teve o intuito de abrir vias ao diálogo com a comunidade, discutir seus problemas e reunir aliados que possam intervir na realidade, respeitando a autonomia dos povos indígenas.

O cacique Sebastião Tavares apresentou um histórico e o cotidiano da reserva que reúne cerca de 3 mil indígenas divididos nas aldeias da Lebre e Pinhal.  Ele falou sobre o atual cenário de ataque a direitos históricos dos povos originários, representado especialmente pela Proposta de Emenda Constitucional 215 (PEC 215), que poderá inviabilizar as demarcações de terras indígenas e quilombolas; o Novo Código de Mineração e o veto da presidenta Dilma Rousseff ao PL que instituiria o ensino multilinguístico nas escolas. “Nossa organização neste momento é fundamental. Se ficarmos parados seremos engolidos”, citou o cacique.

Apesar das críticas ao governo federal, o cacique fez questão de questionar a falta de apoio das prefeituras em relação às necessidades das comunidades, citando a falta de transparência no repasse do ICMS ecológico. “Não sabemos como é gasto esse dinheiro. Em época de política [eleições] eles olham para os indígenas. Nossa saúde está precária, trabalhamos somente com os medicamentos básicos e às vezes até isso falta em nosso posto de saúde”.

Educação e valorização

Preocupada com a formação de novas lideranças, a Terra Indígena Rio das Cobras está constituindo um coletivo estudantil, formado por indígenas que cursam Educação do Campo na UFFS. Segundo Sebastião Tavares, serão esses jovens que irão ser a voz das comunidades e que terão o trabalho da preservação das identidades Kaingang e Guarani. “É a valorização de nossos filhos, de nossa juventude, pois são esses que irão ser as futuras lideranças. Eles têm aprendido muito com os sem-terra e os sem-terra tem aprendido com os indígenas”, comentou Sebastião, lembrando que o curso também é integrado por jovens do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

“Nunca tivemos a oportunidade de participar das decisões coletivas da comunidade. Nosso papel também na faculdade é não deixar que se perca nossas danças, nossas crenças, nossa língua. Vemos as vezes alguns índios na faculdade com vergonha de dizer que é indígena. Não é porque estamos na universidade que deixamos de ser indígenas”, comenta Lucas Kaingang, acadêmico da UFFS.

Levante Zapatista

O Zapatismo, movimento indígena do México que nasceu em um levante em 1994, também foi debatido no sentido de falar sobre autonomia das comunidades indígenas. A insurreição incentivou a criação de redes de apoio aos indígenas do México em todo o mundo. A revolução indígena mexicana foi um marco histórico no aparecimento de uma nova onda de movimentos e protestos populares no mundo. O professor de Ciências Sociais da UFFS, Cássio Brancaleone, falou de sua vivência em 2008 em Chiapas, território autônomo zapatista. “O que podemos trazer de grande influência dessa insurreição foi o conceito de autonomia indígena e autodeterminação destes povos”.

Comunicação Popular

O debate sobre a utilização de ferramentas de comunicação popular em apoio à luta dos povos indígenas foi coordenado por membros da Rádio Xibé e do Coletivo de Mídia Independente de Tefé, no Amazonas, e do Coletivo Rádio Gralha, de Curitiba.

Uma das experiências apresentadas foi o projeto de extensão ‘Somos todos desta terra’, desenvolvido na UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul), campus de Laranjeiras do Sul. Lançado em novembro do ano passado, o projeto consiste em um programa de rádio voltado ao público indígena. Ele é desenvolvido por estudantes indígenas, professores e servidores técnicos da universidade.

Transmitido pela Rádio Campo Aberto AM, o programa tem seu conteúdo trabalhado nas línguas portuguesa, kaingang e guarani. O objetivo da proposta é dar visibilidade e tornar conhecidas as etnias presentes na Reserva Indígena. Além disso, o projeto visa fomentar o respeito ao princípio da igualdade, conforme preconiza a Constituição Federal, e o respeito à diversidade cultural e étnica, bem como o respeito à tolerância.

A professora Nádia Teresinha Franco, coordenadora do projeto, destaca o desconhecimento da sociedade não-indígena em relação às comunidades tradicionais.  “É um projeto que me encanta. O que me motivou foi o sofrimento que os indígenas passam com a questão de sua identidade. É uma proposta modesta de fortalecer a identidade através do uso da linguagem num meio de comunicação de massa”.

O programa é dividido em três momentos. No primeiro, são apresentadas informações gerais sobre a Reserva Indígena; no segundo momento é apresentado um texto da área de Economia, História, Direito ou Antropologia, preparado por professores; e a terceira é utilizada para divulgar a língua kaingang e guarani, com palavras e expressões relevantes para estas etnias.

Para a professora, é fundamental que a comunicação de massa auxilie no respeito e preservação da identidade dos povos tradicionais. “Há um limbo cultural neste momento. O que sentimentos aqui é que os indígenas são estrangeiros dentro de sua própria casa”, conclui a Nádia Terezinha.

Fonte Brasil de Fato

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