Em reportagem especial para o 247, o correspondente Frederico Füllgraf relata como os veículos de comunicação na América Latina têm se relacionado com governos populares na Venezuela, durante o governo de Hugo Chávez; na Argentina de Cristina Kirchner; no Equador, com Rafael Correa, e no Brasil, com a presidente Dilma Rousseff; "Raros são os registros históricos de acachapante promiscuidade e envolvimento institucional da mídia privada em um golpe de Estado", escreve
Frederico Füllgraf, Especial para Brasil 247
Reprodução gentilmente cedida por Revista ADUSP nº 58, dezembro de 2015.
"...Nossos adversários dizem: 'Sim, anos atrás, nós garantimos a liberdade de opinião a vocês'.
Sim vocês a nós! Mas esta não é uma prova de que nós a devemos garantir a vocês!
Que vocês a deram a nós é apenas uma prova do burros que são!"
Joseph Goebbels (discurso, 4/12/1935).
Estamos em guerra.
Em uma audiência para rádios e televisões católicas, ocorrida em março de 2014, ninguém menos que o Papa Francisco declarou: "Hoje, o clima midiático tem suas formas de envenenamento. As pessoas sabem, percebem, mas infelizmente se acostumam a respirar da rádio e da televisão um ar sujo, que não faz bem. É preciso fazer circular um ar mais limpo. Para mim, os maiores pecados são aqueles que vão na estrada da mentira, e são três: a desinforma-ção, a calúnia e a difamação". O uruguaio Aram Aharonian, fundador da TeleSur, alerta: "Vivemos em plena batalha cultural: a guerra pela imposição de imaginários coletivos se dá através de meios cibernéticos, audiovisuais e da imprensa... São golpes baixos permanentes, noticias... que não têm contextualização, mas que conseguem impactar o coletivo e já foram empregadas para desestabilizar os governos populares da América Latina". Está em curso a insurreição impulsionada por um "latifúndio midiático" contra os governos da Venezuela e Argentina, do Brasil e Equador, assinala Ignacio Ramonet, ex-diretor do Le Monde Diplomatique, e adverte: "A principal batalha a ser esgrimida pelos governos democráticos e distruibuidores de renda na América Latina, é a da Comunicação". No Brasil, enquanto hesita em aprovar a regulação do mercado de comunicação, prometido em campanha, o governo Dilma Rousseff vai perdendo a batalha. Na Argentina e no Ecuador, com penosa tramitação judicial, foram adotadas leis de regulação de mercado e de políticas de comunicação, que não conseguiram conter as escaladas dos jornais Clarín (Buenos Aires) e El Universo (Quito). Em seu recém-lançado livro, La internacional del terror mediático (Buenos Aires, 2015), Aharonian fulmina: "Sem uma democratização da comunicação é muito difícil que tenhamos novas sociedades e democracias mais inclusivas e mais equitativas".
A primeira guerra suja contra Hugo Chávez
Concertações e conjuras midiáticas não são novidade no Brasil, cuja Democracia enfrentou duas delas: a partir de 1950, o ataque cerrado ao governo Getúlio Vargas, e - pela mesma falange constituída por Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Diário de Notícias, O Estado de S. Paulo e Diários Associados - a desestabilização do governo João Goulart, entre 1961 e 1964.
Porém, raros são os registros históricos de acachapante promiscuidade e envolvimento institucional da mídia privada em um golpe de Estado, como o ocorrido na Venezuela e aqui resumido.
Com folgada maioria de 56,20% dos votos, em 6 de dezembro de 1998, o então tenente-coronel da reserva, Hugo Chávez, candidato de uma frente ampla, nacionalista e progressista, era eleito presidente da Venezuela com um projeto de reformas centradas na nacionalização do petróleo e do combate à pobreza, na qual estavam mergulhados 43,9% da população.
Consciente da oposição que lhe oporiam a tradicional oligarquia e as novas forças neoliberais, Chávez vislumbrou uma reforma da Constituição como ferramenta jurídica para deslanchar os programas prometidas em campanha. Para legitimar a reforma, realizou-se o Referendo de abril de 1999, mediante o qual 87,75% dos eleitores de pronunciaram favoravelmente a uma Assembleia Constituite e uma nova Constituição, promulgada em dezembro de 1999, que garantiu a reeleição de Chávez em 30 de julho de 2000. Em novembro do mesmo ano, a Assembleia Nacional aprovaria a "Ley Habilitante", que dotou o presidente de poderes especiais para aprovar um pacote de 49 medidas de notável impacto social e político, como a Lei Orgânica de Hidrocarburetos (que aumentava em 30% a tributação das petroleiras transnacionais e fixando em 51% a participação acionária do Estado nas sociedades mistas, como a petroleira PDVSA, na qual Chávez denunciara uma "caixa preta" de operações ilícitas), a Lei de Pesca (que proibiu a pesca industrial de arrasto, com benefícios para os pescadores artesanais), e a Lei de Terras e Desenvolvimento Agrário (que permitíu a expropriação de latifúndios, beneficiando camponeses sem terra e pequenos agricultores).
Mal eram aprovadas, o setor empresarial e seus partidos as taxaram de "inconstitucionais", e o governo Chávez" de "anti-democrático". Confontacionista, já em 10 de dezembro de 2001, a Fedecámaras patronal conclamou a Venezuela a uma greve geral "de advertência", com palavras-de-ordem pela renúncia de Chávez.
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